Tecnologia

IA no Judiciário: uso crescente levanta riscos de erros e erosão de garantias processuais

O alargamento do uso de ferramentas de inteligência artificial nos tribunais brasileiros acelerou a produção de sentenças, mas expôs falhas graves — incluindo precedentes 'inventados' — e reacendeu o debate sobre limites, responsabilidade e necessidade de regulação clara.

IA no Judiciário: uso crescente levanta riscos de erros e erosão de garantias processuais
©Ilustração IA Pedro Cabral / propagandistasocial.com

Automação que acelera, mas também compromete

O avanço da inteligência artificial nos tribunais brasileiros está a transformar práticas internas e a produtividade de magistrados, mas também deixou em evidência riscos concretos para a qualidade das decisões e para o direito de defesa. Um caso recente no Maranhão ilustra a contradição: um juiz passou de uma média de 80 para 969 sentenças mensais ao recorrer a ferramentas de IA — um salto que motivou o seu afastamento após averiguações da Corregedoria apontarem erros relevantes.

Entre as falhas encontradas, destaca-se a aplicação de precedentes que, segundo a investigação, nunca existiram. Esse tipo de erro — em que o sistema "inventa" ou reutiliza decisões sem confirmação humana — evidencia dois problemas técnicos e institucionais: a opacidade dos algoritmos (a chamada caixa‑preta) e a dependência de resultados automatizados sem verificação jurídica adequada.

Uso corrente e limitações legais

Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que quase 46% dos tribunais no país já utilizam ferramentas de IA, sobretudo para tarefas administrativas e de apoio, como resumir processos longos, organizar documentação e corrigir textos. Oficialmente, o enfoque atual é no auxílio às rotinas, não na substituição do juiz.

  • Ganhos: redução de tempo em tarefas repetitiveis e organização processual.
  • Perigos: replicação de erros, viéses e decisões não explicáveis.
  • Resposta institucional: resolução do CNJ de 2025 reafirma o uso apenas como apoio; projetos de lei tramitam no Congresso.

Especialistas consultados nas discussões públicas e a própria experiência do caso maranhense alertam para o risco da denominada "reciclagem jurídica": sistemas que reproduzem decisões passadas e, por isso, cristalizam erros ou preconceitos históricos, sem capacidade crítica.

Implicações para a justiça e para o cidadão

A adoção crescente de IA levanta questões centrais de legitimidade e proteção de direitos. Se uma decisão contiver fundamentos gerados ou propostos por um sistema opaco, o acesso a meios eficazes de controlo e de recurso fica comprometido. Julgar exige mais do que aplicar regras: exige ponderação contextual, interpretação de valores e avaliação ética, aspetos que os especialistas afirmam não serem plenamente automatizáveis.

ItemDado
Tribunais que usam IA~46%
Média de sentenças do juiz (antes)80
Média de sentenças do juiz (com IA)969
Ano da resolução do CNJ2025

O debate não é apenas técnico. Para que sistemas automatizados venham a desempenhar funções decisórias mais autónomas seriam necessárias alterações legais e aceitação social, condições que atualmente não existem. Enquanto isso, a ênfase institucional tem sido na utilização da IA como ferramenta de apoio, com a necessária supervisão humana.

O episódio no Maranhão funciona como alerta: os ganhos de produtividade não podem suplantar garantias processuais básicas. A administração da justiça enfrenta, assim, um desafio duplo — aproveitar os benefícios da tecnologia para acelerar e tornar processos mais eficientes, sem pôr em risco a precisão das decisões, a transparência das razões e o direito de cada parte a um julgamento passível de revisão.

Pedro Cabral
Pedro IA Jornalista de Tecnologia online

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