Tradição familiar e produto selecionado marcam meio século na cidade
Na Avenida Conde de Valbom, onde a paisagem de restaurantes e hábitos de consumo mudou várias vezes desde a década de 1970, subsiste um estabelecimento cuja identidade se manteve coerente ao longo de décadas. O restaurante fundado por António Francisco Pereira, que abriu portas em 1976, celebra agora o seu 50.º aniversário em Lisboa mantendo práticas que explicam a sua longevidade.
Os traços que distinguem a casa não são apenas simbólicos: diariamente entra bacalhau inteiro vindo da Islândia, a grelha a carvão é acesa todas as manhãs e continuam a ser servidas receitas com ligações claras à biografia do fundador. A casa permaneceu nas mãos da família e preservou relações com fornecedores antigos — das batatas às couves — que ainda hoje abastecem a cozinha.
"O Rei do Bacalhau"
O epíteto de "O Rei do Bacalhau", que passou a acompanhar oficialmente o restaurante uma década após a sua abertura, foi atribuído pelos próprios clientes e tornou‑se elemento central da sua imagem pública. A especialização no bacalhau não foi fruto do acaso, mas de uma preocupação continuada com a qualidade da matéria‑prima e com escolhas de produção que remontam às origens do fundador no Fundão e à sua experiência profissional em Moçambique.
- Fundação: 1976, primeiro espaço na Avenida Conde de Valbom, n.º 69;
- Mudança para a morada atual: 1986;
- Reputação consolidada ao longo de décadas graças a fornecedores e receitas tradicionais.
Para os moradores de Lisboa, o exemplo do Laurentina é significativo por várias razões práticas. Primeiro, mostra como a persistência de uma identidade gastronómica pode ser factor de atração e fidelização numa capital sujeita a tendências gastronómicas rápidas. Segundo, revela o papel das cadeias de fornecimento locais e de relações duradouras com produtores, que sustentam a estabilidade da oferta de produtos sazonais e tradicionais.
Ao nível urbano, a permanência desta casa confere continuidade a um troço da cidade onde já passaram numerosas tipologias de restauração. O restaurante funciona, assim, como referência para quem procura receitas tradicionais com uma ligação explícita a práticas e ingredientes mantidos ao longo de décadas — um elemento de memória colectiva e de mercado que continua a ter procura entre lisboetas e visitantes.
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1976 | Abertura do restaurante na Avenida Conde de Valbom (n.º 69) |
| 1986 | Instalação na morada atual |
| 2026 | Comemoração do 50.º aniversário |
Em suma, a história do Laurentina é também um retrato de Lisboa enquanto cidade onde algumas casas conseguem manter práticas e relações que atravessam gerações, influenciando não só a gastronomia local como a experiência quotidiana de quem vive e circula na capital.