Miguel Corrêa Monteiro foi eleito por unanimidade presidente da Academia Portuguesa da História, sucedendo a Manuela Mendonça, que faleceu no passado dia de Natal. A eleição devolve ao perfil público um académico cuja trajectória pessoal e profissional atravessa episódios decisivos do Portugal contemporâneo: da participação na guerra do Ultramar à carreira académica em História.
Militar de formação – frequentou o 26.º curso de Comandos, em 1973 – Monteiro recorda o destacamento para o distrito de Tete, em Moçambique, onde serviu como oficial de infantaria. Relata confrontos com guerrilheiros deslocados de Cabo Delgado na sequência da Operação Nó Górdio, uma ofensiva dirigida por Kaúlza de Arriaga contra a FRELIMO, então liderada por Samora Machel. Do serviço voluntário nas Forças Armadas passou ao estudo: regressou a Portugal e concluiu a licenciatura em História.
"Fui parar ao distrito de Tete [noroeste de Moçambique] como oficial de infantaria"
Enquanto estudante, integrou a Academia quando esta estava instalada no Palácio da Rosa, lembrando que se sentava "sempre na última fila". A carreira docente iniciou-se em 1987, ano em que ganhou o concurso para assistente estagiário e o primeiro prémio de História Moderna da Comissão Portuguesa dos Descobrimentos, presidida pelo professor Veríssimo Serrão. A partir daí estabeleceu-se uma relação de tutela que marcou o seu percurso académico.
Especialista na história da Companhia de Jesus, Monteiro é autor de obras como Os Jesuítas e o Ensino Médio (2011), dedicada à memória da filha Margarida. Na Academia vai ocupar a cadeira número 17. Apesar da eleição, o novo presidente já anunciou que não pretende prolongar indefinidamente a sua permanência: tem 75 anos e conta abandonar a cadeira dentro de cinco anos, quando essa decisão se coloca ao académico que perfaz essa idade.
Contexto e consequências
A eleição de Monteiro ocorre num momento em que as instituições de memória e investigação histórica enfrentam desafios públicos e internos: renovação geracional, definição de prioridades científicas e diálogo com a sociedade. Como presidente, caberá-lhe gerir a relação da Academia com organismos de investigação, com o ensino da História e com o património documental e edificado ligado à instituição.
O percurso pessoal de Monteiro — da experiência militar à investigação histórica — traz para a presidência uma perspetiva que cruza memória vivida e reflexão académica. Essa convergência poderá influenciar a agenda da Academia nos próximos anos, nomeadamente no debate sobre o papel das Forças Armadas na história recente, a interpretação do passado colonial e a formação histórica no ensino secundário e superior.
- Eleição: por unanimidade para presidente da Academia Portuguesa da História.
- Trajectória: ex-combatente em Moçambique, licenciado em História e discípulo de Veríssimo Serrão.
- Mandato previsto: pretende deixar a cadeira número 17 dentro de cinco anos, aos 80 anos.
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1973 | Frequenta o 26.º curso de Comandos e serve em Tete, Moçambique. |
| 1987 | Ganha o concurso para assistente estagiário e o primeiro prémio de História Moderna da Comissão Portuguesa dos Descobrimentos. |
| 2011 | Publica Os Jesuítas e o Ensino Médio. |
A nova liderança terá também de lidar com a preservação e valorização do património intelectual da Academia e com a sua função pública enquanto fórum de reflexão histórica. A continuidade da instituição depende não apenas da projecção científica, mas igualmente da capacidade de dialogar com públicos mais amplos sobre o passado e o seu impacto no presente.