Uma nova fonte de dados para gestão do risco de incêndio
Uma equipa do Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF), na Catalunha, lançou a plataforma digital ForestDrought que calcula e apresenta em mapas de acesso livre o estado hídrico das florestas e a quantidade de água no solo na Península Ibérica e nas ilhas Baleares. A actualização é diária, permitindo monitorizar a evolução da secura da vegetação em tempo quase real — informação que pode ser determinante para antecipar situações críticas durante ondas de calor.
O mapa da ferramenta indica que, apesar das chuvas abundantes durante o inverno terem deixado os ecossistemas com boas reservas hídricas até junho, o agravamento das ondas de calor tem vindo a reduzir essas reservas devido à transpiração das plantas. A plataforma destaca recentemente maior secura em regiões como a Extremadura, o oeste da Andaluzia e Castela‑La Mancha.
“Quando as plantas têm menos de 100% de humidade, é indicativo de stress hídrico, e se desce abaixo dos 80%, é preciso estar alerta, porque significa que a vegetação está muito seca e pode inflamar‑se com maior facilidade”, afirmou Miquel de Cáceres, investigador no CREAF.
A ForestDrought não se limita à humidade viva das plantas: disponibiliza também indicadores críticos para a prevenção de incêndios, como o potencial de propagação pelas copas, a probabilidade de ignição do mato e a humidade da vegetação morta. Esta tipologia de indicadores permite uma avaliação mais completa do risco, com utilidade operacional para serviços de protecção civil, bombeiros e gestores florestais.
Fontes e método: integração de múltiplos dados
Para gerar as simulações diárias, a plataforma combina várias camadas de informação:
- Dados meteorológicos da AEMET, Servei Meteorològic de Catalunya (SMC), MeteoGalicia e Rede de Informação Agroclimática da Andaluzia (RIA).
- Informação sobre solo, relevo e estrutura florestal proveniente do Inventário Florestal Nacional, do Mapa Florestal de Espanha e de mapas LiDAR.
- Modelação científica baseada em estudos do CREAF que sustentam os índices de humidade e stress hídrico.
Víctor Granda, cientista de dados da equipa, sublinha o objectivo prático da ferramenta: antecipar de forma mais fiável quando e onde a vegetação viva atinge níveis que aumentam o risco de incêndio. A disponibilização pública dos mapas facilita o acesso a informação que até agora podia estar fragmentada por serviços e instituições.
Implicações para Portugal
Embora a iniciativa tenha origem catalã e os exemplos referidos sejam sobretudo espanhóis, a cobertura incluída para a Península Ibérica significa que gestores e responsáveis portugueses podem beneficiar directamente destes dados. Numa região que em 2025 registou um dos piores desempenhos em área ardida, ferramentas que cruzam meteorologia e inventários florestais tornam‑se centrais para estratégias de prevenção, planeamento de patrulhas e priorização de recursos.
| Elemento | Exemplo/Origem |
|---|---|
| Humidade da vegetação | Valores percentuais que indicam stress (<100%) e alerta (<80%) |
| Dados meteorológicos | AEMET, SMC, MeteoGalicia, RIA |
| Cartografia florestal | Inventário Florestal Nacional, Mapa Florestal de Espanha, LiDAR |
Para os decisores em Portugal, a ForestDrought representa uma ferramenta complementar de vigilância que pode informar acções preventivas e operações de resposta. A adopção prática dependerá agora da integração desses mapas nos fluxos de trabalho locais e da capacidade das equipas em interpretar os indicadores para tomadas de decisão rápidas.