Está em curso uma procedência disciplinar sobre o atendimento prestado nas urgências do Hospital do Espírito Santo de Évora após a receção de uma queixa formal da família de um utente que faleceu naquele serviço. A denúncia, a que a agência Lusa teve acesso, aponta para condutas que os autores consideram «gravemente» deficientes durante o episódio clínico.
Segundo o documento entregue à Ordem dos Médicos (OM), a família acusa o oncologista que acompanhava o doente de «indicar grave e reiterada negligência» e de erro de critério ao desvalorizar sinais de alarme num paciente com cancro. O queixoso refere, nomeadamente, a ocorrência de febre — sintoma com significado maior em doentes oncológicos — que terá sido desvalorizada.
"omissão gravíssima do dever de assistência imediata em situação de emergência e uma conduta manifestamente violadora do respeito e humanização dos cuidados de saúde"
A OM confirmou a receção da queixa e informou que o processo será apreciado pelo Conselho Disciplinar. Em paralelo, o gabinete de comunicação da Unidade Local de Saúde do Alentejo Central (ULSAC), entidade que integra o hospital, também reconheceu ter recebido uma reclamação formal e declarou que os factos «se encontram em análise pelas instâncias competentes, com vista ao rigoroso apuramento».
O doente, de 64 anos e diagnosticado com cancro da orofaringe, morreu nas urgências do estabelecimento hospitalar no dia 15 deste mês, conforme relatado à Lusa. A família descreve contactos prévios com o Serviço de Oncologia: perante a febre, foi aconselhada a evitar as urgências e a procurar a consulta do oncologista, que terá solicitado análises e prescrito um anti-inflamatório, com a indicação de remeter receita por e-mail caso fosse necessário.
O que está em causa e implicações locais
O processo levanta questões sobre:
- Critérios de triagem e identificação de sinais de risco em doentes imunocomprometidos;
- Coordenação entre consulta de especialidade e urgência quando o doente apresenta sintomatologia potencialmente grave;
- Transparência na comunicação entre profissionais, doentes e famílias, nomeadamente quanto ao seguimento de exames e à orientação sobre recurso às urgências.
Para os habitantes do distrito, estes pontos são centrais: a capacidade de resposta das urgências hospitalares e a confiança nos profissionais são determinantes no acesso a cuidados atempados, sobretudo para utentes com patologias oncológicas que exigem avaliação rápida perante sinais de infeção ou outra deterioração clínica.
| Evento | Data (referida na informação) |
|---|---|
| Óbito do utente nas urgências | 15 deste mês |
| Notícia/receção da queixa pela comunicação social | 22 de Julho de 2026 |
A investigação disciplinar da OM e a averiguação interna da ULSAC vão determinar se houve falhas processuais ou de conduta clínica. Enquanto decorrem esses procedimentos, a ULSAC limita-se a afirmar que a reclamação está a ser analisada «pelas instâncias competentes», sem adiantar mais pormenores.
Para familiares e utentes, o desfecho deste caso poderá ter repercussões práticas: eventual alteração de protocolos de triagem em doentes oncológicos, reforço da articulação entre consulta de oncologia e serviços de urgência, e maior esclarecimento público sobre os caminhos de reclamação e investigação quando há suspeita de negligência.