Dois autores ligados à investigação e ao mundo empresarial lançam uma crítica direta ao modo como Portugal gera riqueza. Intitulado "Valor Acrescentado Brando", o livro propõe que o crescimento económico tem sido, muitas vezes, uma aparência de normalidade, porque o valor criado é pouco defensável, pouco escalável e acaba por não se traduzir em maior riqueza retida no país.
Um conceito para descrever um padrão
O título joga com o familiar indicador estatístico — o Valor Acrescentado Bruto (VAB) — para introduzir o neologismo que dá o tom da obra: a ideia de um VAB que é brando, no sentido de fraco ou pouco ambicioso. Os autores, David Pereira de Castro, investigador com ligação à Copenhagen Business School, e Paulo Morgado, gestor e fundador da Bridgewhat, sustentam que a fórmula dominante de crescimento tem sido insuficiente para elevar o país para níveis superiores de sofisticação económica.
"Portugal habituou-se a crescer sem enriquecer . Escrevemos este livro para dar nome a esse padrão."
Segundo a nota de imprensa que acompanha o lançamento, o objectivo não é apenas criticar, mas oferecer uma lente para escolhas políticas e empresariais: promover mais propriedade, mais sofisticação e mais valor gerado e retido em Portugal.
Mecanismos que mantêm o “brando”
Os autores identificam um conjunto de factores que sustentam esse padrão: uma sobrevalorização do poder face ao mérito, baixo risco face à inovação, e uma preferência pelo adjetivo face ao substantivo — manifestações, dizem, de uma elite que, por complacência, transforma o suficiente no máximo.
- Crítica institucional: falta de foco nas áreas-chave para o futuro.
- Preferência pelo curto prazo: aversão ao risco e pouca aposta na escalabilidade.
- Impacto social: crescimento sem correspondentes ganhos de riqueza coletiva.
Metodologia em três camadas
O livro assenta numa estrutura investigativa que combina testemunhos e dados comparativos com métodos modelares, procurando fundar as conclusões em evidência empírica e visões de agentes relevantes.
| Camada | Descrição |
|---|---|
| Entrevistas | Dez personalidades da economia portuguesa — economistas, antigos governantes, juristas e empresários. |
| Comparação | Análise comparativa com dez economias, com base em dados do World Bank, OCDE, Eurostat, INE e Banco de Portugal. |
| Modelos | Metodologia de investigação assistida por modelos para testar hipóteses sobre geração de valor. |
Ao conjugar entrevistas qualitativas com análise comparativa e modelação, o livro pretende não só diagnosticar como também apontar caminhos para alterar o padrão identificável. A proposta passa por reforçar a propriedade intelectual e empresarial em Portugal, aumentar a sofisticação dos activos e actuar para que mais valor fique efetivamente no país.
Implicações políticas e empresariais
As conclusões do livro tocam diretamente políticas públicas, estratégias empresariais e prioridades de investimento: se a leitura dos autores estiver correta, será necessária uma combinação de reformas institucionais, incentivos à inovação com maior apetência ao risco e medidas que melhorem a capacidade de escala das empresas portuguesas. A mensagem central é clara: crescer não basta se o crescimento não se traduz em mais riqueza duradoura.
O debate lançado por Valor Acrescentado Brando deverá alimentar as discussões sobre talento, retenção de valor e reforma estrutural do aparelho económico, com impacto potencial nas escolhas de política industrial, educação e financiamento empresarial.