A liderança da Transparência Internacional voltou a lançar um alerta sobre os desafios globais ao combate à corrupção. Em declarações públicas, o presidente da organização, François Valérian, apontou para um contexto de crescente polarização política que dificulta a ação conjunta entre Estados e enfraquece instrumentos de cooperação estabelecidos no plano internacional.
Quebra de mecanismos internacionais e polarização
Valérian afirmou que decisões adotadas por governos, concretamente o governo Trump, contribuíram para a erosão de mecanismos de colaboração entre países. Para a organização, este fenómeno tem consequências práticas: dificulta investigações transfronteiriças, atrasa processos de partilha de informação e fragiliza iniciativas multilaterais que sustentam a prevenção e a punição de crimes económicos.
Assédio a quem combate abusos de poder
O presidente da ONG frisou que os defensores da integridade pública enfrentam um ambiente hostil. Segundo Valérian, «Quem tenta combater abusos de poder frequentemente termina atacado pelos dois lados», uma observação que sublinha como acusações e campanhas de descrédito surgem tanto de actores institucionais como de correntes políticas adversas.
“Quem tenta combater abusos de poder frequentemente termina atacado pelos dois lados. Foi exatamente o que aconteceu com a Transparência Internacional Brasil durante vários anos. O nível de assédio e agressividade que observamos no Brasil não tem comparação com o que ocorreu em outras seções do movimento.”
O caso do Brasil como ilustrativo
Valérian referiu-se explicitamente ao contexto brasileiro ao descrever um padrão de pressão e assédio direcionado a organizações anticorrupção. Afirmou que o grau de agressividade verificado no Brasil «não tem comparação» com outras partes do mundo onde a organização opera, evidenciando riscos concretos para a continuidade e segurança de iniciativas que investigam e denunciam corrupção.
- Risco global: fragilização de redes de cooperação entre Estados para investigação e prevenção de crimes económicos.
- Risco institucional: desgaste e campanhas de deslegitimação contra organizações que investigam abusos de poder.
- Risco local: incremento do assédio e da agressividade política que pode limitar a atuação de secções nacionais da organização.
Implicações para a ação pública e cívica
As observações de Valérian colocam um desafio às democracias: como assegurar mecanismos robustos de cooperação e proteção para atores da sociedade civil num quadro de polarização elevada? Para além das investigações específicas, a garantia de independência institucional e a proteção de quem trabalha em prol da integridade pública surgem como prioridades para evitar que a resposta à corrupção seja sufocada por pressões políticas e campanhas de intimidação.
As declarações da liderança da Transparência Internacional convidam governos e parlamentos a reexaminar compromissos multilaterais e domésticos, bem como a reforçar salvaguardas que assegurem que organizações anticorrupção possam operar sem receio de represálias. A vigilância internacional e a cooperação entre Estados continuam a ser apontadas como instrumentos essenciais para contrariar as tendências apontadas por Valérian.