Crime organizado no Sudeste Asiático evolui para uma "economia multinacional" com custos bilionários
Um relatório recente do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) traça um quadro preocupante sobre a transformação do crime organizado no Sudeste Asiático. A investigação descreve uma transição de redes locais e sectoriais para um verdadeiro ecossistema criminal interconectado, em que actividades tradicionais como o tráfico de estupefacientes e o contrabando se articulam com serviços digitais ilícitos, sobretudo fraudes online, que se tornaram fontes de rendimento difíceis de rastrear.
O estudo quantifica as perdas provocadas por esquemas fraudulentos entre 88,3 mil milhões e 114,1 mil milhões de dólares em 2025 (equivalente aproximado a 80–103 mil milhões de euros). Estes números, segundo o relatório, ultrapassam o produto interno bruto de vários Estados da região e ilustram a escala económica do fenómeno.
“Estamos a assistir a uma mudança em que grupos que antes atuavam apenas nos seus territórios e especialidades criminais operam agora em múltiplos mercados ilícitos ao mesmo tempo, recorrendo às mesmas cadeias de serviços”, afirmou Delphine Schantz, representante regional do UNODC.
O documento aponta ainda para mudanças nas rotas e nas actividades. O tradicional Triângulo Dourado mantém‑se como centro de produção de metanfetaminas, quetamina e heroína, com um valor anual estimado entre 75 mil milhões e 109,7 mil milhões de dólares (cerca de 68–99 mil milhões de euros). Paralelamente, novo corredor marítimo — o Triângulo Sulu‑Celebes, entre Indonésia, Malásia e Filipinas — surge como via estratégica de contrabando, incluindo tecnologia e equipamento utilizados em operações de fraude.
O relatório sublinha também a convergência entre actividades que antes corriam em paralelo: jogos online, apostas ilegais, plataformas de pagamento e serviços de liquidação financeira são cada vez mais incorporados na cadeia de valor criminal. Esse processo agrava a vulnerabilidade de grupos juvenis e facilita o recrutamento laboral forçado, com vítimas identificadas provenientes de pelo menos 80 países e usadas em complexos de fraude na região.
- Fraudes digitais: perdas anuais estimadas entre 88,3 e 114,1 mil milhões de dólares.
- Produção de estupefacientes: valor anual estimado entre 75 e 109,7 mil milhões de dólares.
- Expansão geográfica: Triângulo Sulu‑Celebes emerge como novo corredor estratégico.
A combinação destas actividades cria desafios sérios para os Estados e para as autoridades regulatórias e judiciais: cadeias financeiras opacas, utilização de tecnologia para mascarar fluxos de capitais e a deslocação de centros de actividade para plataformas digitais dificultam a identificação de responsáveis e a recuperação de activos. Para além disso, a internacionalização das redes implica que a resposta não pode ser apenas regional — exige coordenação transfronteiriça entre agentes de investigação, plataformas tecnológicas e reguladores financeiros.
| Tipo de actividade | Estimativa anual (USD) | Equivalente aproximado (EUR) |
|---|---|---|
| Fraudes digitais | 88,3–114,1 mil milhões | 80–103 mil milhões |
| Produção de estupefacientes (Triângulo Dourado) | 75–109,7 mil milhões | 68–99 mil milhões |
As conclusões do UNODC colocam‑se como um alerta para a comunidade internacional e para países como Portugal, onde a digitalização crescente da economia aumenta a exposição a esquemas de fraude com origem ou conecção a centros distantes. A interligação de mercados ilícitos na Ásia reforça a necessidade de medidas concertadas: reforço da cooperação policial, maior transparência nos circuitos financeiros, diligência acrescida por parte de plataformas digitais e programas de prevenção que protejam grupos vulneráveis do recrutamento para actividades criminosas.
Sem respostas integradas e rápidas, os custos económicos e sociais decorrentes dessa «economia criminosa multinacional» tendem a amplificar‑se, com consequências que ultrapassam fronteiras regionais e exigem uma estratégia global de combate e mitigação.