Um estudo do Citi Research aponta que a expansão da inteligência artificial (IA) na próxima década tem mais probabilidade de reforçar do que de reduzir as desigualdades entre economias desenvolvidas e em vias de desenvolvimento. Segundo os economistas Johanna Chua e Yuanliu Hu, apenas um conjunto restrito de países emergentes deverá captar benefícios substanciais do actual ciclo de investimentos em infraestrutura de IA.
O relatório destaca como factor central a posição na cadeia global de semicondutores, identificando explicitamente Taiwan, Coreia do Sul e Singapura como os principais vencedores emergentes, graças ao domínio em segmentos estratégicos do fabrico e design de chips. Outros mercados — entre os quais o Malásia, Vietname, Tailândia e México — participam da cadeia de fornecimento, mas com impacto macroeconómico muito mais limitado.
Por que a IA pode beneficiar sobretudo algumas economias
O Citi sustenta que os maiores ganhos económicos não estarão necessariamente com quem produz a tecnologia, mas com os países que a conseguem integrar de forma ampla nas suas actividades económicas. A comparação feita com a revolução da tecnologia da informação dos anos 1990 serve para sublinhar que os ganhos de produtividade tenderam a surgir sobretudo entre os utilizadores intensivos da tecnologia, não apenas entre os fabricantes de hardware.
O relatório refere ainda que a velocidade e a amplitude de difusão da IA estão fortemente correlacionadas com o nível de rendimento per capita. Essa relação traduz-se em diferenças em:
- infraestrutura digital e capacidade de conectividade;
- qualificação da mão-de-obra e formação técnica;
- ambiente regulatório e de políticas públicas;
- capacidade de inovação e ecossistemas de I&D.
Em consequência, o Citi conclui que a maioria dos ganhos de produtividade decorrentes da IA deverá permanecer concentrada nas economias desenvolvidas, que partem de melhores indicadores nesses domínios.
“O ciclo atual de IA favorece principalmente os Estados Unidos e um pequeno grupo de fornecedores estratégicos de semicondutores”
Esta constatação abre duas grandes linhas de reflexão para responsáveis políticos e actores económicos em Portugal. A primeira é que a simples presença de empresas tecnológicas no território ou a atração de fábricas de componentes não garante automaticamente efeitos macroeconómicos significativos; a capacidade de incorporação transversal da tecnologia na economia nacional é decisiva. A segunda prende-se com o imperativo de políticas públicas orientadas para reduzir fragilidades estruturais que limitam a adopção: desde a formação especializada e reciclagem profissional até investimentos em infraestrutura digital e quadros regulatórios que incentivem inovação e utilização responsável de IA.
Implicações práticas e prioridades políticas
Para países como Portugal, o relatório sugere que as vantagens competitivas de curto prazo poderão ser modestos se não se acelerarem políticas que promovam a absorção tecnológica. Entre as prioridades que decorrem da análise do Citi estão:
- Reforço da formação técnica e digital em todos os níveis de ensino;
- Investimento em infraestruturas digitais de alta capacidade;
- Mecanismos de apoio à adoção de IA por PME e sectores tradicionais;
- Incentivos à investigação aplicada e parcerias entre universidades e empresas.
| País | Papel na cadeia de IA |
|---|---|
| Taiwan | Fornecedor estratégico de semicondutores |
| Coreia do Sul | Produção e design de chips e integração tecnológica |
| Singapura | Hub regional e fornecedor de serviços avançados |
O documento do Citi é um alerta para a realidade de que a corrida pela IA não é apenas tecnológica, mas também institucional e educativa. Para além de atrair investimento, os países que quiserem extrair ganhos substanciais precisam de criar condições para uma adopção ampla e produtiva da tecnologia por empresas e cidadãos. Sem isso, o risco é que a inovação amplie disparidades internacionais em vez de as atenuar.