O debate sobre a sustentabilidade na economia da saúde ganha dimensão política e económica à escala europeia e nacional. Instrumentos regulatórios como a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) exigem maior transparência das empresas sobre o seu desempenho ambiental, social e de governance (ESG) — uma mudança que o setor farmacêutico e os serviços de saúde em Portugal terão de integrar nas suas estratégias.
Da responsabilidade ambiental às operações clínicas
A justificação central é dupla: além de um imperativo ético, há uma lógica de competitividade. Empresas farmacêuticas defendem que reduzir a pegada ecológica, otimizar recursos e incorporar princípios de eco-design nos produtos contribui igualmente para a eficiência económica e para a resiliência dos sistemas de saúde. Segundo dados divulgados, desde 2019 foram registadas reduções relevantes nas operações industriais: 47% nas emissões, 85% de eletricidade proveniente de fontes renováveis e 50% de redução no consumo de água.
Impacto nacional: emissões e prevenção
À escala global, o setor da saúde é responsável por cerca de 4,4% das emissões globais de gases com efeito de estufa; em Portugal, o setor representa aproximadamente 5,8% das emissões nacionais. Estas proporções colocam o setor como actor relevante nas metas climáticas do país. A argumentação empresarial sublinha ainda que o desenvolvimento de medicamentos e vacinas, ao prevenir doenças e reduzir hospitalizações, pode diminuir a pressão sobre recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, por consequência, reduzir consumos associados à prestação de cuidados.
Inovação tecnológica e riscos de implementação
A integração de tecnologias como a inteligência artificial promete acelerar ensaios clínicos e tornar a investigação mais eficiente, com impacto potencial na sustentabilidade. Paralelamente, práticas industriais e logísticas que reduzem desperdício e consumo energético são apontadas como vectores de criação de valor. Contudo, a transição implica custos e mudanças organizacionais: adaptar cadeias de fornecimento, adequar relatórios de sustentabilidade à CSRD e garantir dupla materialidade são desafios que exigem coordenação entre empresas, reguladores e serviços públicos.
- Regulação: a CSRD aumenta obrigações de reporte e transparência.
- Metas empresariais: reduções verificadas de emissões e consumos desde 2019.
- Consequência nacional: setor da saúde representa cerca de 5,8% das emissões em Portugal.
| Indicador | Valor referido |
|---|---|
| Redução de emissões (desde 2019) | 47% |
| Eletricidade renovável nos complexos industriais | 85% |
| Redução do consumo de água | 50% |
| Contribuição do setor para emissões globais | 4,4% |
| Contribuição do setor para emissões em Portugal | 5,8% |
Para o SNS e para os decisores públicos, as implicações são práticas: políticas de compras públicas sustentáveis, incentivos à inovação que reduza impactos ambientais e a integração de critérios ESG nas avaliações de tecnologia e financiamento de saúde. Ao mesmo tempo, a exigência de relatórios detalhados e de dupla materialidade pode aumentar a visibilidade sobre riscos climáticos e sociais que afectam cadeias de valor e a própria acessibilidade dos cuidados.
O momento exige articulação entre reguladores, indústria e instituições de saúde para que a sustentabilidade deixe de ser um propósito isolado e passe a integrar decisões clínicas, industriais e de política pública — sem comprometer o acesso e a qualidade dos cuidados.