Com a difusão rápida das ferramentas digitais, o diferencial competitivo das empresas deixa de nascer na tecnologia em si e passa a resultar da pergunta que cada organização decide colocar antes de a incorporar. É esta a leitura de responsáveis por consultoria e transformação digital, para quem a tecnologia é um instrumento — não o ponto de partida nem a solução autónoma.
Ambição e foco: o começo da vantagem
Gabriel Marostegam, diretor sénior de IA e dados da consultora Avanade, sublinha que o elemento determinante é a ambição da pergunta que a organização se coloca ao usar tecnologia. Segundo ele, a diferença entre empresas que apenas aplicam soluções e as que conseguem construir novos ciclos de crescimento está na escolha da pergunta a responder: será para reduzir custos ou para oferecer algo que antes era impossível?
"O principal ponto é a ambição da pergunta que a pessoa, a organização, se faz na hora de usar a tecnologia."
Estratégia liderada pelo negócio
Heloisa Callegaro, sócia sénior e líder da McKinsey no Brasil, recomenda que a agenda de transformação por IA seja construída e liderada pelo negócio, não pela TI. Para ela, o ponto de partida deve ser um roadmap claro, alinhado com prioridades estratégicas, com foco em alguns temas essenciais que possam depois ser escalados.
Como exemplos de prioridades estratégicas a explorar com IA, os especialistas apontam:
- Mudar a produtividade — usar automação e modelos para melhorar processos críticos;
- Melhorar a experiência do cliente — personalização e serviços que antes eram impraticáveis;
- Escolher temas estratégicos — concentrar recursos em poucos projetos com impacto mensurável e escalável.
Consequências práticas para empresas
A mudança de mentalidade implica que a tecnologia deixe de ser tratada como um problema exclusivo da área de TI e passe a integrar a estratégia global da organização. Isso exige:
- Uma liderança do negócio na definição de objetivos de IA e dados;
- Um plano com temas prioritários, metas claras e disciplina de escala;
- Investimento em capacidades internas para transformar perguntas ambiciosas em resultados medíveis.
| Especialista | Função |
|---|---|
| Gabriel Marostegam | Diretor sénior de IA e dados, Avanade |
| Heloisa Callegaro | Sócia sénior e líder da McKinsey no Brasil |
O desafio para empresas portuguesas que adoptam IA e outras tecnologias é, portanto, menos técnico e mais de governança e estratégia: definir perguntas ambiciosas e transformar essas perguntas em projectos liderados pelo negócio, com foco em impacto e escalabilidade. Essa mudança de enfoque pode ser o que separa organizações que usam tecnologia como uma ferramenta de custo daquelas que a usam para gerar o próximo ciclo de crescimento.