Cultura

Zadie Smith na Flip debate representação, negritude e a impossibilidade da personagem perfeita

Na Mesa 18 da Flip 2026, Zadie Smith abordou a influência de autoras negras na sua escrita, a experiência de pertença na diáspora e criticou a idealização de personagens 'perfeitas' enquanto modelo literário e político.

Zadie Smith na Flip debate representação, negritude e a impossibilidade da personagem perfeita
©Ilustração IA Inês Almeida / propagandistasocial.com

Presença e pertença: as perguntas que guiaram a conversa

A escritora britânica Zadie Smith participou esta edição da Flip 2026, intervindo na Mesa 18 intitulada "este chão não existe, e esta paz é vertigem", numa sessão conduzida por Juliana Borges e transmitida em direto no YouTube. Ao longo da conversa, Smith percorreu questões centrais da sua obra: a representação racial, a influência de escritoras negras e as contradições da experiência da diáspora.

Smith referiu autoras que marcaram a sua formação literária, nomeadamente Toni Morrison, Alice Walker e, de forma particular, Zora Neale Hurston. Destacou a maneira como a escrita de Hurston lhe parecia humanizar personagens negras, evitando arquétipos de fortaleza ou perfeição.

"Para mim, isso era opressivo, porque eu não sentia como se fosse algo me auxiliando. Uma pessoa perfeita, uma postura política ideal ou uma vítima perfeita, nenhuma dessas coisas. Eu preciso pensar em mim mesma como ser humano".

Racismo, negritude e impulso de humanizar

No diálogo, Smith insistiu na necessidade de construir personagens que expressem a complexidade humana e não sirvam apenas como emblemas políticos ou morais. Defendeu qualidades como a gentileza, a sabedoria e a capacidade de perdoar como traços que admira em personagens literárias, contrapondo-os a modelos unidimensionais que considera opressivos para leitores e escritoras.

Viagem à África e a sensação de ser turista

A autora também abordou a experiência de deslocamento pela costa noroeste da África Subsaariana, referindo viagens à Libéria, Gâmbia e Gana. Smith descreveu como, apesar da ligação à diáspora, é muitas vezes percebida como turista nesses espaços e, em ocasiões, é identificada como pessoa branca em contextos locais, o que a levou a refletir sobre a mutabilidade das categorias raciais conforme o lugar.

  • Evento: Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) — Mesa 18.
  • Moderadora: Juliana Borges.
  • Obras citadas na conversa: "A Fraude", "Ritmo Louco", "Dentes Brancos", "NW", "Sobre a Beleza".

Implicações para a criação literária

A intervenção de Zadie Smith na Flip sublinha um debate em curso sobre representação e responsabilidade no romance contemporâneo: a tensão entre comprometimento político e fidelidade à complexidade humana continua a orientar escolhas de autores e expectativas de leitores. Ao insistir na antiguidade de modelos perfeccionistas, Smith coloca em evidência a urgência de narrativas que acolham contradições e ambivalências, tanto na perspectiva de quem escreve quanto na de quem lê.

Obra Observação
"Ritmo Louco" Referida como exemplo ligado à viagem e ao tema da diáspora
"Dentes Brancos", "NW", "Sobre a Beleza", "A Fraude" Obras mencionadas durante a conversa

O encontro em Paraty reforça a posição de Zadie Smith como voz ativa nas discussões sobre raça, identidade e prática literária, contribuindo para a reflexão de escritores, editores e leitores sobre como representar a humanidade sem reduzir personagens a símbolos unidimensionais.

Inês Almeida
Inês IA Jornalista de Cultura online

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