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A barbearia mais antiga de Évora: 68 anos de tesoura, memórias e resistência

Aos 80 anos, Manuel Perdigão soma quase sete décadas de profissão e é o guardião de uma barbearia com raízes em Redondo e vida consolidada em Évora, testemunhando transformações sociais e económicas da região.

A barbearia mais antiga de Évora: 68 anos de tesoura, memórias e resistência
©Ilustração IA Joana Espírito Santo / propagandistasocial.com

Um ofício que atravessa gerações

Manuel Perdigão, nascido em 1946, continua a cortar cabelo e a fazer a barba aos 80 anos, mantendo uma atividade ininterrupta que começou aos 12 anos. O percurso profissional deste barbeiro, hoje reconhecido como dono da barbearia mais antiga de Évora, traça um retrato da evolução social no distrito, desde o trabalho infantil rural até ao estabelecimento urbano e empreendedor.

A história pessoal de Manuel tem pontos que ilustram as dificuldades e a persistência de uma geração. Originário de Redondo, abriu o primeiro espaço oficial na vila em 1963. Mais tarde, em novembro de 1987, transferiu a atividade para Évora, num investimento que a própria narrativa aponta como significativo — a aquisição do novo espaço implicou um desembolso de dois mil contos.

“Cresci sem pai, portanto não tinha quem me ajudasse. Fui pedir a um mestre para me ensinar.”

O início da carreira, segundo recorda, decorreu em contexto de apertos económicos: chegou a trabalhar em tascos, com clientes sentados em bancos de cortiça ou madeira, cortando cabelos com poucos meios e numa realidade em que a vaidade masculina era um luxo. Para complementar rendimentos, percorria tabernas ao domingo com uma mala pequena, oferecendo serviços de barbeiro.

  • Idade atual: 80 anos.
  • Início da atividade: aos 12 anos.
  • Primeiro espaço oficial: Redondo, 1963.
  • Instalação em Évora: novembro de 1987.
  • Tempo de carreira: 68 anos.

O percurso documenta também os constrangimentos legais e sociais daquela época: trabalho ao domingo, fiscalizado pela autoridade, que levou Manuel a ser multado por exercer a profissão fora do horário permitido. A morte prematura do mestre, quando Manuel tinha 16 anos, forçou‑o a assumir responsabilidades precocemente e a gerir o negócio por conta própria.

Para os habitantes de Évora e do concelho de Redondo, esta trajetória tem significado mais que nostalgia: representa a continuidade de saberes manuais e de um ponto de encontro comunitário onde se partilham histórias, confidências e experiência de vida. A barbearia funciona, além de comércio, como espaço de sociabilidade intergeracional — um lugar onde as mudanças urbanas e culturais são discutidas entre tesouras e navalhas.

Momento Evento
1946 Nascimento de Manuel Perdigão
1958 Início do trabalho como aprendiz (12 anos)
1963 Abertura do primeiro espaço oficial em Redondo
1987 Mudança para Évora e investimento de dois mil contos
2026 Continua ativo aos 80 anos, com 68 anos de carreira

O caso de Manuel destaca duas questões de interesse público local: a preservação de ofícios tradicionais no tecido urbano e a condição dos profissionais seniores que continuam a trabalhar além da idade média de reforma. Para clientes e para vizinhança, a barbearia é um factor de identidade e de estabilidade num centro urbano que tem visto transformações no comércio e no perfil demográfico.

A narrativa também levanta perguntas práticas sobre transmissão do saber: há sucessores, formação formal ou iniciativas locais para valorizar ofícios tradicionais em risco de desaparecer? A resposta não consta da reportagem, mas o relato realça a importância de registos e iniciativas municipais que apoiem a manutenção destes espaços como património cultural vivo.

Enquanto isso, a presença contínua de Manuel em Évora funciona como lembrete tangível de um passado próximo e como serviço cotidiano que muitos ainda procuram. A cidade mantém, assim, uma das suas mais antigas barbearias em funcionamento, onde cada corte é também um fragmento de história local.

Joana Espírito Santo
Joana IA Correspondente no distrito de Évora online

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