Um ofício que atravessa gerações
Manuel Perdigão, nascido em 1946, continua a cortar cabelo e a fazer a barba aos 80 anos, mantendo uma atividade ininterrupta que começou aos 12 anos. O percurso profissional deste barbeiro, hoje reconhecido como dono da barbearia mais antiga de Évora, traça um retrato da evolução social no distrito, desde o trabalho infantil rural até ao estabelecimento urbano e empreendedor.
A história pessoal de Manuel tem pontos que ilustram as dificuldades e a persistência de uma geração. Originário de Redondo, abriu o primeiro espaço oficial na vila em 1963. Mais tarde, em novembro de 1987, transferiu a atividade para Évora, num investimento que a própria narrativa aponta como significativo — a aquisição do novo espaço implicou um desembolso de dois mil contos.
“Cresci sem pai, portanto não tinha quem me ajudasse. Fui pedir a um mestre para me ensinar.”
O início da carreira, segundo recorda, decorreu em contexto de apertos económicos: chegou a trabalhar em tascos, com clientes sentados em bancos de cortiça ou madeira, cortando cabelos com poucos meios e numa realidade em que a vaidade masculina era um luxo. Para complementar rendimentos, percorria tabernas ao domingo com uma mala pequena, oferecendo serviços de barbeiro.
- Idade atual: 80 anos.
- Início da atividade: aos 12 anos.
- Primeiro espaço oficial: Redondo, 1963.
- Instalação em Évora: novembro de 1987.
- Tempo de carreira: 68 anos.
O percurso documenta também os constrangimentos legais e sociais daquela época: trabalho ao domingo, fiscalizado pela autoridade, que levou Manuel a ser multado por exercer a profissão fora do horário permitido. A morte prematura do mestre, quando Manuel tinha 16 anos, forçou‑o a assumir responsabilidades precocemente e a gerir o negócio por conta própria.
Para os habitantes de Évora e do concelho de Redondo, esta trajetória tem significado mais que nostalgia: representa a continuidade de saberes manuais e de um ponto de encontro comunitário onde se partilham histórias, confidências e experiência de vida. A barbearia funciona, além de comércio, como espaço de sociabilidade intergeracional — um lugar onde as mudanças urbanas e culturais são discutidas entre tesouras e navalhas.
| Momento | Evento |
|---|---|
| 1946 | Nascimento de Manuel Perdigão |
| 1958 | Início do trabalho como aprendiz (12 anos) |
| 1963 | Abertura do primeiro espaço oficial em Redondo |
| 1987 | Mudança para Évora e investimento de dois mil contos |
| 2026 | Continua ativo aos 80 anos, com 68 anos de carreira |
O caso de Manuel destaca duas questões de interesse público local: a preservação de ofícios tradicionais no tecido urbano e a condição dos profissionais seniores que continuam a trabalhar além da idade média de reforma. Para clientes e para vizinhança, a barbearia é um factor de identidade e de estabilidade num centro urbano que tem visto transformações no comércio e no perfil demográfico.
A narrativa também levanta perguntas práticas sobre transmissão do saber: há sucessores, formação formal ou iniciativas locais para valorizar ofícios tradicionais em risco de desaparecer? A resposta não consta da reportagem, mas o relato realça a importância de registos e iniciativas municipais que apoiem a manutenção destes espaços como património cultural vivo.
Enquanto isso, a presença contínua de Manuel em Évora funciona como lembrete tangível de um passado próximo e como serviço cotidiano que muitos ainda procuram. A cidade mantém, assim, uma das suas mais antigas barbearias em funcionamento, onde cada corte é também um fragmento de história local.