O fenómeno El Niño, caracterizado por temperaturas anormalmente elevadas a nível mundial, surge como um novo fator de pressão sobre os preços dos alimentos. Segundo uma análise da Schroders citada pelo Negócios, o efeito combinado do calor extremo e da falta de fertilizantes — agravada pelo bloqueio no estreito de Ormuz — pode reduzir rendimentos de colheitas cruciais e impulsionar as cotações de produtos como cacau, açúcar, trigo e arroz.
Colheitas em risco e consumidores a pagar a fatura
As zonas agrícolas sujeitas a temperaturas acima do normal tendem a registar perdas de produtividade, sobretudo quando as plantas atravessam fases de desenvolvimento com elevadas necessidades nutricionais. A Schroders alerta que o problema é particularmente grave nas regiões onde não foram constituídos estoques de fertilizantes antes do conflito no Médio Oriente. Além disso, as oscilações climáticas severas no Brasil já atrasaram colheitas de café, provocando uma valorização abrupta desse produto.
“O risco para a produção agrícola é mais grave nas regiões onde não foram garantidos ‘stocks’ de fertilizantes antes do conflito [no Médio Oriente] e no caso de culturas com elevadas necessidades nutricionais que entram nas suas fases-chave de desenvolvimento quando a intensidade do ‘El Niño’ atinge o seu pico”
O relatório destaca também movimentos de preços recentes: o mercado de café registou, a 6 de julho, o maior aumento diário desde 2000, superior a 15%. Estes episódios ilustram a volatilidade que pode transbordar para os mercados de consumo.
Impacto na inflação alimentar e cenários para 2027
A Schroders sublinha um cenário preocupante: uma subida de 50% no índice de preços dos alimentos da FAO até ao final do ano poderia traduzir-se num salto da inflação alimentar para valores de dois dígitos nos países do G7 em 2027. Em Portugal, onde os alimentos têm um peso relevante na despesa das famílias, esse impacto refletir-se-á nos orçamentos domésticos e poderá condicionar política económica e social.
Vulnerabilidades já existentes
O risco climático chega num momento em que a produção agrícola global enfrenta constrangimentos: a escassez de fertilizantes é um dos fatores mais mencionados, fruto de perturbações geopolíticas que interferem nas cadeias de abastecimento. Paralelamente, o Serviço Copernicus registrou que junho foi o mês mais quente de sempre na Europa Ocidental e o segundo mais quente a nível global, adicionando pressão às condições de cultivo.
- Produtos mais expostos: arroz, trigo, açúcar, cacau e café.
- Fatores amplificadores: escassez de fertilizantes e calor extremo.
- Consequência macro: risco de inflação alimentar elevada em 2027 nos países do G7.
| Produto | Motivo de risco |
|---|---|
| Arroz | Altas necessidades nutricionais e sensibilidade a stress hídrico |
| Trigo | Perda de rendimento por temperaturas extremas nas fases-chave |
| Açúcar | Impacto em culturas tropicais e subtropicais |
| Cacau | Vulnerabilidade ao calor e pragas |
| Café | Atrasos de colheita no Brasil e volatilidade de preços |
Para o consumidor português, o reflexo mais direto será uma pressão acentuada sobre o preço da cesta básica. No plano institucional, os riscos apontam para a necessidade de medidas que reduzam a exposição — desde estratégias de armazenamento estratégico de insumos até apoio à adaptação das práticas agrícolas. A conjugação de fatores climáticos e logísticos torna este período particularmente sensível para a segurança alimentar e para a estabilidade dos preços dos alimentos.