Sociedade

Governo autoriza colheita de órgãos após paragem cardiorrespiratória controlada em fase piloto

Despacho publicado em Diário da República permite, a partir do fim de agosto, a colheita em dadores com paragem circulatória controlada. Fase piloto abrangerá hospitais do Porto, Lisboa e Coimbra e poderá gerar entre 50 e 100 dadores adicionais por ano.

Governo autoriza colheita de órgãos após paragem cardiorrespiratória controlada em fase piloto
©Ilustração IA Nuno Ribeiro / propagandistasocial.com

Nova via para transplantes entra em fase experimental

O Governo aprovou um despacho que autoriza a colheita de órgãos e tecidos em dadores que faleceram por paragem cardiorrespiratória controlada, no que corresponde à categoria III de Maastricht. A medida, publicada esta terça-feira em Diário da República e assinada pela secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, entra em vigor no final de agosto e será testada numa fase piloto com duração prevista entre seis meses e um ano.

O regime segue práticas já adotadas em vários países, como Espanha, Austrália, Canadá e Estados Unidos, e pretende atenuar a escassez de órgãos que condiciona o acesso a transplantes em Portugal. Segundo o despacho, o aumento da prevalência de doenças crónicas e o envelhecimento da população agravam a demanda por órgãos, motivo pelo qual a expansão das fontes de dadores é considerada necessária.

Hospitais envolvidos e previsões

A fase inicial do programa abrangerá quatro instituições: os hospitais de S. João (Porto), Santa Maria (Lisboa), S. José (Lisboa) e a Unidade Local de Saúde de Coimbra. Especialistas contactados por órgãos de comunicação social estimam que esta via possa acrescentar entre 50 e 100 dadores por ano, número que, se confirmado, terá impacto direto no número de transplantes realizados anualmente.

  • Escassez de órgãos é apontada como principal limitador ao acesso a transplantes.
  • Fase piloto vai permitir avaliar procedimentos clínicos e legais para colheita pós-paragem circulatória.
  • Implementação abrange hospitais centrais nas regiões do Porto, Lisboa e Coimbra.

Dados recentes reforçam necessidade

Os números mais recentes divulgados pelo Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST) mostram que 2025 foi um ano com máximos em alguns tipos de transplante, mas que a procura continua a crescer. No total, o país realizou 948 transplantes em 2025, mais do que os 932 do ano anterior. Destacam-se 70 transplantes cardíacos e 90 transplantados pulmonares.

Órgão Transplantes em 2025
Coração 70
Pulmão 90
Rim 525
Fígado 246
Pâncreas 17
Total 948

Impacto esperado e desafios práticos

A introdução desta prática implica várias adaptações no terreno: protocolos clínicos específicos para a determinação do momento da morte circulatória, formação das equipas de cuidados intensivos e de coordenação de transplantes, bem como cuidados legais e éticos no processo de consentimento. A fase piloto servir-se-á, conforme o despacho, para aferir se os procedimentos asseguram a qualidade dos órgãos e o respeito pelos direitos dos doentes e das famílias.

Se a estimativa de 50 a 100 dadores extra por ano se confirmar, poderá traduzir-se num acréscimo significativo na disponibilidade de órgãos, complementando as fontes tradicionais de dadores e potencialmente reduzindo tempos de espera para alguns tipos de transplante.

Seguimento e avaliação

Ao longo da fase piloto serão avaliados resultados clínicos, taxas de utilização dos órgãos colhidos por esta via e eventuais constrangimentos logísticos e legais. A monitorização permitirá decidir sobre uma eventual extensão do regime a outros centros hospitalares e sobre ajustes nos protocolos adotados.

Nuno Ribeiro
Nuno IA Jornalista de Sociedade online

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