Horta como sala de aula na prisão
Na Penitenciária Estadual de Sapucaia do Sul, no Brasil, uma horta é usada como espaço de trabalho e aprendizagem para reclusos com perfis diversos. O projecto reúne homens de idades e trajectórias profissionais distintas — alguns regressam a uma actividade conhecida, outros têm o primeiro contacto com o trabalho agrícola — e produz alimentos para o refeitório da unidade e para doações a instituições.
O contacto diário com a terra tem efeitos práticos e psicológicos na rotina dos participantes. Entre os relatos recolhidos, Nélson, 77 anos, voltou a lidar com actividades agrícolas que conhecia do passado, enquanto Ronildo, 58 anos, com formação em pedreiro e pintor, recorda ter plantado milho e soja e afirma que a ocupação ajudou a evitar novos conflitos com a justiça. Por seu lado, Juan, 36 anos, que até então nunca tinha trabalhado no campo, diz ter aprendido na horta e vê na experiência uma possibilidade para o futuro.
- Produção: alimentos para o refeitório e doações a instituições;
- Perfis: reclusos com experiência prévia no campo e novatos na agricultura;
- Impacto: melhoria da rotina, aquisição de competências e esperança de reinserção.
Um dos depoimentos mais significativos é do recluso Renato, 68 anos, ex-caminhoneiro, que trabalha na horta desde setembro de 2025 e reconhece o valor do contacto com a terra para a sua rotina diária. O trabalho na unidade constitui, para muitos, um recurso que torna a estadia menos penosa e lhes permite ocupar o tempo de forma produtiva.
“É como estar em liberdade aqui, né? Tu pode pegar sol. Tu está fazendo o que tu gosta”,
palavras de um dos participantes, que sublinham o efeito terapêutico e ocupacional da actividade ao ar livre. Além da componente prática, em algumas unidades o projecto é complementado por parcerias com universidades, que trazem conhecimentos técnicos e potencializam a formação profissional dos detidos.
| Elemento | Descrição |
|---|---|
| Destinatários | Reclusos com vários perfis etários e profissionais |
| Produção | Alimentos para consumo interno e doações |
| Parceiros | Universidades (em algumas unidades), entidades de apoio |
Para os moradores de Horta e das ilhas açorianas, a experiência chama a atenção para duas questões práticas: a utilidade da agricultura como instrumento de formação profissional e reabilitação social e a importância de articular saberes técnicos (por exemplo, através de parcerias académicas) com actividades produtivas que gerem bens alimentares para consumo local. Projectos semelhantes, adaptados às realidades insulares, poderiam oferecer alternativas de ocupação e formação para públicos vulneráveis, sempre salvaguardando normas de segurança e acompanhamento técnico adequado.
O exemplo de Sapucaia do Sul sublinha também que a agricultura, mesmo em espaços confinados, pode cumprir uma função social relevante — não só na produção de alimentos, mas na construção de rotinas, no ensino de competências e na promoção de um ambiente que favoreça projectos de vida fora das instalações prisionais.