O futuro do primeiro leite produzido em modo biológico nos Açores está em risco depois de a cooperativa responsável pela recolha comunicar uma revisão dos contratos que prevê, segundo produtores, uma redução significativa das quantidades aceites e uma descida do preço pago ao produtor. A situação foi denunciada pela Associação de Produtores de Leite Biológico Terceirense (APLBIO).
O projecto arrancou com um grupo inicial de oito produtores que, em 2017, começaram a converter as explorações para o modo biológico. Dois anos depois foi comercializado o primeiro leite biológico açoriano. Hoje existem, na ilha Terceira, entre 16 e 20 produtores desse leite, que dependem da recolha feita pela cooperativa Unicol.
“Perante a intenção de reduzir para cerca de metade, ou menos, as quantidades de leite biológico a receber, muitos produtores poderão ser obrigados a abandonar a produção biológica e a regressar ao modelo convencional.”
O presidente da APLBIO, Bento Pereira, afirmou que os produtores receberam uma carta da cooperativa a informar que os contratos vigentes terminam no final do ano e que haveria novas condições contratuais a partir de 2027. Os contratos que agora terminam serão, por isso, reavaliados em novembro, quando a cooperativa deverá apresentar as novas cláusulas.
Entre os pontos que preocupam os produtores estão:
- uma prevista redução drástica das quantidades que a Unicol aceitará como leite biológico;
- a expectativa de diminuição do preço pago ao produtor;
- a atual taxa de transformação: só cerca de 28% do leite entregue como biológico está efetivamente a ser transformado e comercializado como tal, segundo a APLBIO.
Atualmente o leite biológico tem um prémio de mercado de 12 cêntimos por litro face ao preço do leite convencional. Para muitos pequenos produtores, essa diferença e a garantia de escoamento são determinantes para a viabilidade económica da opção pelo modo biológico. A APLBIO alerta que, sem condições comerciais sustentáveis, haverá retorno ao sistema convencional não por falta de convicção, mas por necessidade de manter a exploração.
Impacto local e próximos passos
Se se confirmar a intenção de reduzir quantidades e preços, as consequências imediatas serão a perda de rendimento para quem já investiu na conversão, redução da diversidade da produção local e possível enfraquecimento da aposta açoriana num produto com selo de sustentabilidade. A incerteza estende-se também ao mercado regional e às cadeias de valor que possam beneficiar da existência de leite biológico certificado nos Açores.
Os produtores aguardam agora a publicação dos novos contratos, prevista para novembro, e apelam a soluções que garantam o escoamento e a remuneração justa. A partir de novembro ficará mais claro se a cooperativa mantém o compromisso com o produto biológico ou se se impõe uma nova realidade que poderá alterar o panorama agropecuário da Terceira.
| Item | Valor / Observação |
|---|---|
| Produtores na Terceira | 16–20 |
| Prémio por litro (biológico vs convencional) | +€0,12 |
| Percentagem transformada/comercializada como biológico | 28% |
| Contratos atuais terminam | Último dia deste ano |
| Novas condições previstas | Conhecidas em novembro, aplicação a partir de 2027 |