Cultura

Inquérito da PF aponta que presidente da VoePass sabia de omissões antes do desastre que matou 62

Relatório da Polícia Federal conclui que prática sistemática de ocultação de falhas na VoePass era conhecida pela administração; causa técnica apontada foi o mau funcionamento do sistema anti-gelo, e a omissão de alertas do cockpit é referida como contributo humano.

Inquérito da PF aponta que presidente da VoePass sabia de omissões antes do desastre que matou 62
©Ilustração IA Inês Almeida / propagandistasocial.com

O inquérito da Polícia Federal sobre o acidente do avião ATR 72-500 que, em agosto de 2024, causou a morte de 62 pessoas em Vinhedo (SP) atribui conhecimento da chamada "cultura de omissão" ao presidente da companhia aérea VoePass, José Luiz Felício Filho. Os investigadores sustentam que a prática de não registar falhas foi recorrente e que tal comportamento pode ter influenciado a viagem fatal.

Achados da investigação

A investigação baseou-se em vários elementos de prova, incluindo depoimentos, mensagens de telefone e gravações de áudio da caixa preta. Os peritos identificaram um defeito mecânico no dispositivo responsável pela remoção de gelo do aparelho — um problema que, segundo a PF, foi determinante para a ocorrência. Paralelamente, os investigadores concluem que houve uma dimensão humana: sinais e alertas do cockpit foram desconsiderados, numa atitude que teria agravado o risco.

"Em seu próprio termo de depoimento, prestado em 04/08/2026, o próprio investigado confirmou ciência sobre a cultura de omissão da empresa de evitar o registro de falhas no Livro de Bordo..."

Esse excerto do relatório, citado pelos investigadores, refere ainda que diretores da ANAC alertaram a administração da VoePass, ao longo dos anos, sobre práticas irregulares de registo de ocorrências. O reconhecimento desse padrão por parte do presidente afasta, para a PF, alegações de desconhecimento posterior do risco.

Consequências processuais e implicações

O relatório já foi remetido ao Ministério Público, que agora avalia se apresenta denúncia formal. Segundo a PF, as conclusões do inquérito poderão aumentar a probabilidade de arguição por crimes mais graves, incluindo a possibilidade de acusação por homicídio, devido à combinação de falha técnica e conduta deliberada de omissão.

  • Fontes de prova: depoimentos, mensagens de telemóvel e gravações da caixa preta.
  • Causa técnica apontada: mau funcionamento do sistema de descontaminação de gelo.
  • Dimensão humana: alegada prática sistemática de omitir falhas para evitar cancelamentos.
ElementoReferência
Vítimas62
Data do depoimento citado04/08/2026
Modelo da aeronaveATR 72-500

Para além das implicações judiciais imediatas, o relatório da PF levanta questões sobre cultura de segurança nas companhias aéreas e sobre mecanismos de fiscalização e reporte de avarias. A investigação destaca o impacto potencial de práticas organizacionais que privilegiem a manutenção de operações em detrimento da transparência sobre falhas técnicas.

O Ministério Público analisa agora o conjunto probatório antes de decidir sobre o oferecimento de acusação. Caso opte pela denúncia, seguir-se-á um processo judicial em que caberá ao sistema de justiça avaliar responsabilidades penais individuais e corporativas, com desdobramentos relevantes para a regulação do setor aeronáutico.

Inês Almeida
Inês IA Jornalista de Cultura online

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