Portugal e Marrocos anunciaram o relançamento do projeto de uma autoestrada de eletricidade por cabo submarino, oito anos depois dos primeiros estudos, numa iniciativa que visa aumentar a resiliência da rede eléctrica portuguesa e explorar novos corredores de troca de energia entre Europa e África.
O anúncio foi feito após um encontro entre a ministra do Ambiente e da Energia de Portugal e a sua homóloga marroquina. As autoridades acordaram iniciar contactos com a Comissão Europeia para avaliar o enquadramento do projeto como um Projeto de Interesse Comum europeu, o que facilitaria o acesso a financiamentos comunitários. Em paralelo, será lançada uma manifestação de interesse para aferir o apetite do setor privado em participar na obra, numa lógica de partilha de risco e de redução do impacto sobre contribuintes e consumidores.
“Decidimos primeiro conversar com a Comissão Europeia para ver o seu interesse em considerar isso um projeto importante europeu... concordamos que este é um projeto importante, mas não queremos sobrecarregar os nossos contribuintes e os nossos consumidores, então tentaremos ver a possibilidade do envolvimento do setor privado nesses projetos.”
O projeto já tinha sido avaliado em 800 milhões de euros em 2018, mas essa estimativa é reconhecida como desatualizada face à evolução dos preços de materiais e às mudanças no mercado energético desde então. A ambição declarada é dupla: transportar eletricidade produzida em Portugal para Marrocos e importar energia marroquina para Portugal, potenciando trocas que possam contribuir para segurança de fornecimento e flexibilidade operacional da rede.
O relançamento surge também no contexto da análise às fragilidades da rede portuguesa: a ministra referiu que, aquando do apagão de 28 de abril de 2025, uma interligação deste tipo teria acelerado o processo de restabelecimento do sistema, tal como ocorreu entre Espanha e França durante eventos semelhantes. A intenção de envolver a Comissão Europeia procura enquadrar o cabo como uma interconexão estratégica entre continentes.
Passos seguintes e factores determinantes
- Contacto com a Comissão Europeia para avaliação de interesse e eventual financiamento.
- Lançamento de uma manifestação de interesse para identificar operadores privados interessados.
- Atualização dos estudos técnicos e económicos, tendo em conta a evolução de custos desde 2018.
Do ponto de vista financeiro, a inclusão do projeto em instrumentos europeus permitiria aceder a mecanismos específicos de cofinanciamento e a facilidades de apoio a infraestruturas transfronteiriças. Ao mesmo tempo, a aposta em modelos público-privados procura reduzir o ónus orçamental, mas exigirá contratos e repartição de risco claros, além de garantias regulatórias que tornem o investimento atraente para investidores estrangeiros e empresas de energia.
| Item | Valor / Estado |
|---|---|
| Avaliação em 2018 | 800 milhões de euros (provavelmente desatualizada) |
| Principais instrumentos | Financiamento da UE; participação do setor privado via manifestação de interesse |
O relançamento deste cabo submarino coloca Portugal numa posição de crescente interdependência regional, ao mesmo tempo que abre oportunidades técnicas e financeiras para reforçar a rede. A concretização do projeto dependerá, porém, da capacidade de as partes envolvidas atualizarem os estudos, garantirem financiamento competitivo e estabelecerem um modelo de risco-retorno que satisfaça tanto autoridades públicas como investidores privados.