País aproxima-se do limite da década e Ribatejo evidencia fragilidades
Portugal atingiu um nível crítico na gestão dos riscos de incêndio: segundo a avaliação da associação ambientalista ZERO ao relatório de 2025 do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, o país consumiu cerca de 98% da área ardida que estava prevista para todo o período 2020–2030. A constatação coloca em causa metas de prevenção e obriga a repensar medidas imediatas e de médio prazo.
O ano de 2025 destacou-se pelo aumento das ocorrências e da área queimada: registaram-se 8.252 incêndios rurais — mais 32% do que em 2024 — e arderam aproximadamente 271.000 hectares, praticamente o dobro do ano anterior. Apesar de os grandes incêndios corresponderem a menos de 0,5% das ocorrências, 44 desses eventos foram responsáveis por cerca de 91% da área total ardida, evidenciando como poucos fogos, em condições extremas, podem provocar devastação.
Risco concentrado no Ribatejo
O cenário é particularmente preocupante no Ribatejo, onde a eucaliptização domina grandes extensões. A área florestal da região abrange cerca de 432.000 hectares nos 25 concelhos analisados, dos quais cerca de 230.000 hectares — mais de 53% — são ocupados por eucalipto. No distrito de Santarém, a espécie ocupa mais de 208.000 hectares, enquanto concelhos como Rio Maior, Abrantes e Chamusca registam percentagens e áreas com forte presença da espécie.
Além da composição da paisagem, problemas de gestão agravam o risco: abandono de povoamentos, caminhos florestais bloqueados, faixas de gestão por executar e volumosos acumulados de combustível. Autoridades locais e responsáveis da Proteção Civil têm vindo a alertar para essas fragilidades — por exemplo, em Ourém apontaram-se cerca de 600 km de caminhos por desobstruir — e no Médio Tejo as tempestades recentes agravaram os estragos, reduzindo a capacidade de resposta e de acesso.
A ZERO destaca ainda que o Programa Nacional de Ação apresenta uma execução de apenas 53%, um indicador que sublinha a necessidade de acelerar intervenções e coordenar melhor as ações entre Estados, municípios e proprietários.
Consequências e prioridades
Os dados de 2025 demonstram que medidas reativas já não bastam: a elevada proporção de área ardida em poucos incêndios indica que a combinação de clima extremo, continuidade de combustível e lacunas na gestão pode levar a anos ainda mais severos. As prioridades passam por reduzir a continuidade de combustíveis, desobstruir acessos, reforçar a mão-de-obra especializada na gestão florestal e incentivar a diversificação das culturas florestais.
- Urgência na execução de faixas de gestão e limpeza de caminhos;
- Reforço de políticas que contrariem a eucaliptização excessiva;
- Coordenação entre autoridades, proprietários e comunidades locais para diminuir a continuidade de combustível.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Área ardida em 2025 | ~271.000 hectares |
| N.º de incêndios rurais em 2025 | 8.252 |
| Percentagem do limite decenal consumida | 98% |
| Grandes incêndios | 44 (91% da área ardida) |
| Percentagem de eucalipto no Ribatejo | ~53% |
Perante estes números, a discussão pública e política sobre prioridades — prevenção, ordenamento e incentivos à recuperação de paisagens mais resilientes — ganha nova urgência. As próximas decisões orçamentais e de política florestal serão determinantes para alterar a tendência que já consumiu quase toda a margem prevista para a década.