A presidência interina de Delcy Rodríguez está a traduzir-se numa alteração substancial da política económica e nas relações externas da Venezuela. A dirigente, de 57 anos, confirmou numa entrevista à TIME uma aproximação inédita com Washington após a queda de Nicolás Maduro, mas rejeitou a ideia de que o país tenha perdido a sua soberania.
Contexto da transição e sinais económicos
A Venezuela que Rodríguez assumiu em janeiro encontrava-se num quadro de profunda desorganização: hiperinflação, colapso da produção petrolífera, corrupção, interrupções de energia, e uma forte escassez de bens básicos que haviam provocado o êxodo de quase 8 milhões de venezuelanos. Nos últimos meses, porém, surgem sinais de recuperação, com um regresso progressivo da actividade económica e internacionalização das relações comerciais.
Entre os indicadores de mudança citados pela reportagem destacam-se:
- Retoma de operações em campos petrolíferos anteriormente paralisados;
- Retorno ou negociação de empresas norte-americanas como ExxonMobil, ConocoPhillips, Halliburton e GE Vernova no mercado venezuelano;
- Reabertura de voos comerciais entre os EUA e a Venezuela, algo que não acontecia desde 2019;
- Circulação aberta do dólar e reaparecimento de hotéis de luxo e investidores estrangeiros.
"de boa-fé"
Na entrevista, que durou cerca de uma hora, Rodríguez afirmou agir “de boa-fé” com o objectivo de garantir a paz e o bem‑estar económico, insistindo que as medidas buscam abrir a economia em benefício da população e não implicam uma rendição da autonomia estatal.
Consequências políticas e económicas
A reaproximação com Washington, descrita pela revista, resultou num aumento da influência norte-americana sobre sectores chave da economia venezuelana, em particular nas áreas energéticas e financeiras. O retorno de empresas e o investimento estrangeiro podem acelerar a recuperação da produção petrolífera e a reposição de cadeias de abastecimento, mas também colocam novos desafios em termos de regulação, negociação de contratos e preservação do interesse público.
Ao mesmo tempo, a presença de capitais e tecnologias externas cria tensões internas entre diferentes elos do antigo aparelho chavista, cuja figura central, Nicolás Maduro, tem vindo a desaparecer progressivamente do centro da visibilidade pública, segundo a reportagem.
Indicadores antes e depois
| Indicador | Situação (antes) | Situação (agora) |
|---|---|---|
| Produção petrolífera | Colapso | Reinício de actividade em alguns campos |
| Presença empresarial dos EUA | Ausente ou limitada | Negociações e retornos de grandes empresas |
| Voos comerciais EUA–Venezuela | Interrompidos desde 2019 | Retomados |
| Moeda corrente | Hiperinflação, forte desvalorização | Circulação aberta do dólar |
O trajecto agora em curso terá repercussões regionais e exigirá decisões complexas tanto a nível interno — sobre quem beneficia dos contratos e como se distribuem ganhos económicos — como externo, na gestão das relações com os Estados Unidos e outros actores interessados. A narrativa de Rodríguez de proteger a soberania, ao mesmo tempo que promove abertura económica, será sujeita a escrutínio por parte de civis, opositores e parceiros internacionais.
À medida que as obras voltam ao horizonte de Caracas e as prateleiras se mostram mais abastecidas, o desafio será consolidar ganhos económicos sem comprometer o controlo democrático e os interesses sociais que justificam a reconciliação com o investimento estrangeiro.