Um ofício que resiste nas margens do Angueira
Aos 83 anos, Marcolino Fernandes apresenta‑se como o último cesteiro mirandês, detentor de uma técnica e de um conjunto de materiais que, segundo o próprio, já não se encontram noutros pontos do Planalto Mirandês. Natural de São Martinho de Angueira, o artesão afirmou à agência Lusa que aprendeu a trabalhar o vime há mais de 50 anos, na aldeia de Caçarelhos (Vimioso), e que o seu labor permanece espalhado por várias regiões do país e até para o estrangeiro.
A matéria‑prima do artesão é descrita como inteiramente local: vimes desfolhados, nó de vimeiro ou salgueiro e escova, provenientes das margens do rio Angueira, afluente do Sabor que nasce em Espanha e atravessa os concelhos de Miranda do Douro e Vimioso. A recolha, o tratamento e o entrelaçar desses ramos constituem um processo que, em conjunto, pede horas de trabalho e uma técnica específica que Marcolino garante ser única na área.
Técnica, tempo e persistência
O cesto mirandês que Marcolino produz é resultado de etapas manuais demoradas: só o descasque dos vimes exige, nas suas palavras, mais de duas horas, enquanto a construção de uma peça pode demorar mais de sete horas. O artesão descreve também as exigências físicas do trabalho — esforço nas costas e nos dedos — e a sensação de identidade ligada à prática quotidiana: cada dia sem fazer uma cesta deixa‑o diferente de si próprio.
"Este trabalho já me cansa muito as costas, os dedos das mãos com os quais é preciso fazer muita força"
Além dos cestos e cestas, Marcolino refere a elaboração de outros objetos tradicionais — chapéus e instrumentos de entretenimento como ruge‑ruges —, o que ilustra a diversidade funcional e cultural da cestaria mirandesa ao longo do tempo.
Memória local e desaparecimento do ofício
O relato do artesão confirma uma tendência já conhecida em áreas rurais: a redução de ofícios tradicionais. Marcolino lembra que, no passado, havia cesteiros em quase todas as aldeias do Planalto Mirandês, motivados pelas necessidades da agricultura, do uso doméstico e da viticultura. Hoje, a produção artesanal encontrou nichos de mercado e circuitos expositivos — como a mostra etnográfica mencionada na Casa da Cultura Mirandesa —, mas a transmissão generacional da técnica parece fragilizada.
- Matéria‑prima: vimes desfolhados, nó de vimeiro/salgueiro, escova — recolhidos nas margens do rio Angueira.
- Tempo de trabalho: mais de 2 horas para descascar; mais de 7 horas para moldar uma cesta.
- Produção: cestos, cestas, chapéus e instrumentos tradicionais (ruge‑ruges).
Implicações culturais e preservação
A persistência de Marcolino no ofício suscita questões sobre políticas de salvaguarda do património imaterial: como apoiar mestres artesãos, documentar técnicas específicas ligadas a ecossistemas locais e assegurar a formação de novos praticantes. A visibilidade em exposições etnográficas contribui para o reconhecimento, mas não substitui mecanismos estruturados de transmissão e apoio económico aos artesãos.
| Elemento | Dados |
|---|---|
| Idade do artesão | 83 anos |
| Tempo de aprendizagem | Mais de 50 anos |
| Tempo de fabrico | Descasque: > 2 horas; Cesta: > 7 horas |
O testemunho de Marcolino é também uma chamada de atenção sobre a relação entre território e saberes: a técnica depende de plantas que crescem nas margens do rio Angueira, o que liga a sobrevivência do ofício a práticas de gestão ambiental e à preservação dos habitats ribeirinhos. Sem essa matéria‑prima autóctone, a técnica perderia um dos seus pilares essenciais.
Enquanto a Casa da Cultura Mirandesa acolhe a exposição etnográfica que mostra o trabalho do artesão, a questão permanece: que medidas vão ser tomadas, a nível local e nacional, para garantir que a cestaria mirandesa não se torne apenas memória documental, em vez de ofício vivo?