As Tecnologias e suas Encruzilhadas, coletânea organizada por Hislla S. M. Ramalho e Margareth dos Anjos Santos, propõe uma revisão do conceito de tecnologia ao situar práticas culturais e saberes tradicionais — da oralidade e da musicalidade às práticas de cura, cultivo e preservação da memória — como formas tecnológicas legítimas. O livro será lançado em dois momentos em julho: 30 e 31, com eventos na Universidade de Brasília e na Fundação Cultural Palmares.
Uma outra leitura do que é tecnologia
A coletânea surge do Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis (NEPFIR/UnB) como resposta a uma pergunta central: por que a tecnologia é frequentemente associada apenas a invenções eurocêntricas ou a meios digitais? As organizadoras defendem que os conhecimentos produzidos historicamente pelos povos negros — transmitidos por via oral, por práticas de ensino comunitário e por saberes agrícolas e medicinais — também constituem tecnologias, no sentido de instrumentos de adaptação, resistência e preservação.
“O nosso desejo era ousar mais”, afirma Margareth dos Anjos Santos sobre a génese do projecto.
O volume reúne 13 textos entre crónicas, poemas e ensaios académicos, escritos por autoras com trajetórias diversas, incluindo estreias editoriais — como a da professora Neide Rafael, que publica o seu primeiro texto aos mais de 70 anos. O trabalho colectivo foi organizado por meio de edital público e concretizado sem financiamento institucional: as próprias autoras custearam a publicação e procuraram parceiros para viabilizar a tradução da obra.
Contexto e desdobramentos
O lançamento da coletânea acontece em julho, mês marcado pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino‑Americana e Caribenha, e insere‑se num momento de ampliação das discussões sobre tecnologia, raça e património cultural. O projecto dá continuidade a trajectórias anteriores do núcleo: recorde‑se do título Desarquivado — escritos de mulheres negras no Brasil, publicado em 2024.
- Organizadoras: Hislla S. M. Ramalho e Margareth dos Anjos Santos.
- Colectivo responsável: Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis (NEPFIR/UnB).
- Conteúdo: 13 textos — crónicas, poemas e ensaios; mistura de autoras consagradas e estreantes.
- Financiamento: autogestão pelas autoras; busca de parceiros para tradução.
Ao recolocar práticas ancestrais e cotidianas como formas de tecnologia, a colectânea desafia categorias disciplinarmente delimitadas e abre espaço para debates sobre currículo, memória cultural e políticas de reconhecimento. Essa perspetiva tem implicações diretas para área da tecnologia enquanto campo de estudo e intervenção social: amplia o leque de saberes considerados relevantes para inovação e para a preservação de patrimónios imateriais.
Agenda de lançamentos
| Data | Evento / Local |
|---|---|
| 30 de julho | XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (COPENE) — Universidade de Brasília (UnB) |
| 31 de julho | Espaço Mário Gusmão — Fundação Cultural Palmares |
O projecto, resultado de trabalho colectivo e de autogestão, poderá influenciar futuras discussões em universidades, espaços culturais e políticas públicas que abordem tecnologia, património e educação. Ao deslocar o foco das tecnologias digitais exclusivas para um conjunto mais amplo de saberes, a obra convida a repensar quem é reconhecido como produtor de conhecimento tecnológico no Brasil.