Uma prática emergente no mercado do desenvolvimento de inteligência artificial está a gerar polémica junto de livreiros, colecionadores e especialistas em preservação: a compra em grande volume de títulos antigos, seguida de digitalização destrutiva, isto é, a retirada das capas para escanear as páginas e o consequente descarte dos volumes físicos.
O que está a acontecer
Fontes do setor relatam que empresas tecnológicas ou intermediários contratados por estas têm adquirido milhares de exemplares em sebos e livrarias especializadas. O objetivo declarado é transformar esses conteúdos em versões digitais para uso no treino de modelos de inteligência artificial. Segundo relatos, muitos dos livros depois ficam inutilizados ou são simplesmente descartados, uma vez que a prioridade é manter a cópia digital.
Por que escolhem livros antigos
O interesse recai sobretudo sobre obras publicadas antes da massificação de ferramentas de geração automática de texto. Esses títulos são procurados por oferecer textos produzidos integralmente por autores humanos, considerados mais valiosos para calibrar algoritmos sem a influência de conteúdos gerados por IA.
- Compras em massa têm alterado o fluxo habitual de sebos, causando escassez de títulos raros.
- Intermediários complicam a rastreabilidade de quem está por trás das aquisições.
- Preservação do património bibliográfico é posta em risco quando exemplares únicos ou fora de catálogo são destruídos.
Consequências legais e culturais
Além do impacto cultural, a prática renovou o debate sobre direitos de autor. Nos Estados Unidos, processos judiciais em curso procuram determinar se a digitalização massiva de livros protegidos por copyright para treino de IA se enquadra em uso legítimo (fair use) ou se constitui violação dos direitos de autores e editoras. A existência de litígios indica que a questão é juridicamente controversa e de consequências imprevisíveis para o setor editorial.
| Elemento | Descrição |
|---|---|
| Prática | Digitalização destrutiva (remover encadernação para escanear) |
| Alvo | Livros antigos e raros, principalmente anteriores à era da IA generativa |
| Consequências | Perda de acervos físicos; debate sobre copyright; processos judiciais em curso |
Donos de sebos e especialistas alertam para o perigo de, numa corrida ao dado «puro», se destruir o próprio património que preserva a história editorial e cultural. A compra em grandes quantidades, muitas vezes por via de intermediários, dificulta ainda mais o controlo sobre a proveniência e o destino final das obras.
O fenómeno coloca decisores públicos, bibliotecas e o sector editorial perante desafios práticos e éticos: como conciliar o desenvolvimento de tecnologias que dependem de vastos conjuntos de dados com a necessidade de proteger bens culturais, assegurar remuneração justa a autores e manter acervos físicos acessíveis às gerações futuras?