A exposição O Silêncio de Hefesto, a inaugurar no Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas dos Açores, propõe uma leitura crítica das múltiplas dimensões da natureza açoriana e das formas de silenciamento político associadas a contextos de ditadura. A curadora, Vera Carmo, baseou a mostra em obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), estruturando-a em quatro núcleos expositivos que ocupam várias salas e células do Arquipélago.
Uma exposição por camadas: geologia, história e política
Segundo a curadora, a proposta parte da convicção de que a paisagem não é neutra: tem uma dimensão geológica, uma dimensão histórica e uma dimensão política, e a leitura dessas camadas varia com as mentalidades e ideologias de cada época. A seleção inicial de obras incidiu sobre a paisagem natural dos Açores e, a partir daí, alargou-se para inserir as peças num enquadramento histórico e cultural mais amplo.
"Há uma dimensão geológica, há uma dimensão que é histórica e há uma dimensão política porque as coisas não são neutras e a forma como elas são vividas pelas sociedades variam de acordo com o tempo em que estamos, as mentalidades e as ideologias"
O discurso curatorial procura articular imagens e objectos que evocam tanto as qualidades oníricas como as facetas mais terríficas da paisagem insular, estabelecendo um diálogo entre representações visuais e fenómenos naturais. Um dos eixos de reflexão centra-se na relação entre desastre natural e produção de imagem e voz: quem fala após uma catástrofe, quem é ouvido e em que condições essa catástrofe se torna audível.
Os Capelinhos como ponto de partida
A erupção dos Capelinhos (1957) funciona na exposição como um ponto de partida específico para cruzar natureza e política. A curadora lembra que esse acontecimento ocorreu num contexto de «ditadura, censura e repressão» e teve impacto mediático significativo: as imagens dos Capelinhos constituem, segundo a curadoria, um marco nas primeiras reportagens de exterior da RTP, aproximando-se do nascimento da imagem mediática de catástrofe em Portugal.
Além das obras centradas na paisagem açoriana, a mostra incorpora peças que permitem leituras diversificadas do fenómeno natural — incluindo trabalhos com dimensão acústica que abordam directamente as questões do silêncio e da voz. A organização da exposição recorre a núcleos e às chamadas células artísticas para articular diferentes linguagens e experiências sensoriais.
A colecção de artistas presentes integra nomes cujos trabalhos dialogam com as temáticas propostas. Entre os artistas mencionados estão Ana Vieira, Emily Wardill, Filipa César & Louis Henderson, Helena Almeida, Inês Zenha, Joana Escoval, João Paulo Feliciano, José Manuel Rodrigues, Lea Managil, Luisa Cunha, Manuela Marques e Mariana Vilanova.
- Estrutura: quatro núcleos expositivos no Arquipélago.
- Foco temático: paisagem, desastre natural, voz e silenciamento em contexto de ditadura.
- Recursos: obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado e peças com dimensão acústica.
| Elemento | Descrição |
|---|---|
| Local | Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas dos Açores |
| Curadoria | Vera Carmo |
| Colecção | CACE (Coleção de Arte Contemporânea do Estado) |
A mostra convida o público açoriano a confrontar memórias naturais e políticas, sobretudo à luz de como os eventos geológicos foram registados e tornaram-se imagens públicas num período de forte controlo informativo. Para os habitantes, a exposição oferece um enquadramento para repensar a própria paisagem — não apenas como pano de fundo físico, mas como arena onde se cruzam memória, poder e forma de representação.