A economista Claudia Goldin, laureada com o Prémio Nobel de Economia em 2023, defende que a decisão das mulheres sobre ter filhos está fortemente condicionada pelo grau de confiança no apoio dos parceiros. Numa investigação publicada pelo NBER e já apresentada no simpósio de Jackson Hole em 2025, Goldin analisa séries históricas e dados atuais que apontam para um «descompasso» entre homens e mulheres relativamente à assunção de tarefas parentais, uma lacuna que poderá estar a alimentar as tendências de queda da natalidade em vários países.
Um novo foco sobre a decisão de ter filhos
Ao longo da carreira, Goldin demonstrou como fatores tecnológicos e sociais — como a difusão da pílula anticoncepcional — modificaram a trajectória profissional das mulheres. No estudo mais recente, agora com evidências compiladas para publicação pelo NBER, centra-se na dinâmica íntima da tomada de decisão: a possibilidade de conciliar carreira e maternidade depende em parte da perceção feminina de que o parceiro será um apoio fiável nos cuidados parentais.
“Quanto mais os homens puderem sinalizar de forma crível que serão pais confiáveis e não fracassos decepcionante
Goldin ressalta que políticas como a licença-paternidade, embora úteis, não são por si suficientes para alterar papeis tradicionalmente atribuídos aos homens. A resistência cultural e a baixa participação prática de muitos homens nos cuidados diários dos filhos mantêm um obstáculo importante para quem pondera a maternidade após ter investido na formação e na carreira.
Implicações sociais e políticas
As conclusões do estudo têm consequências diretas para quem define políticas públicas. Se, como sugere Goldin, a preocupação sobre o apoio conjugal é um factor decisivo, então medidas centradas apenas em incentivos económicos ou em ajudas estruturais poderão falhar em inverter a tendência demográfica. Intervenções que visem o comportamento e as normas de género no seio familiar podem revelar-se tão relevantes quanto os esquemas de licenças e benefícios.
- Foco na confiança: a decisão de ter filhos relaciona-se com se o parceiro é percebido como um apoio fiável.
- Políticas insuficientes: licenças paternidade não garantem, por si, mudança de papéis.
- Consequência demográfica: o descompasso entre expectativas pode contribuir para a queda de natalidade.
| Evento | Ano |
|---|---|
| Prémio Nobel de Economia atribuído a Goldin | 2023 |
| Apresentação no Simpósio de Jackson Hole | 2025 |
| Publicação do estudo pelo NBER | 2026 |
Para Portugal, um país com preocupações demográficas persistentes, o alerta de Goldin reforça a necessidade de políticas integradas: não apenas medidas económicas ou incentivos à natalidade, mas também ações que promovam uma mudança cultural e responsabilizem os homens na partilha dos cuidados parentais. A evidência científica sugere que, sem essa alteração nas práticas quotidianas e nas expectativas entre parceiros, as medidas formais poderão ter eficácia limitada.
O debate que a investigação de Goldin reacendeu coloca desafios aos decisores: como transformar sinalizações e comportamentos privados em mudanças observáveis e duradouras? A resposta exigirá, além de legislação, campanhas culturais, incentivos no local de trabalho e uma avaliação cuidada das políticas de conciliação que visem igualmente homens e mulheres.