A equipa do Departamento de Química da Universidade de Aveiro, liderada pelas investigadoras Cláudia Passos e Sílvia Petronilho, demonstrou que a borra de café — resíduo produzido em larga escala pela indústria e pelo consumo doméstico — pode ser reaproveitada para produzir emulsões alimentares capazes de proteger o óleo de café contra a oxidação e preservar o seu aroma.
Do resíduo ao ingrediente funcional
O estudo concentrou-se na extração do próprio óleo presente na borra e na recuperação de compostos antioxidantes e polissacarídeos que habitualmente são descartados. A investigação recorreu a uma extração assistida por micro-ondas para obter dois extratos principais, designados MW1Sn (extração a 150°C) e MW2Sn (extração a 180°C). Esses extratos consistiram maioritariamente em galactomananos e arabinogalactanos, com o extrato a 150°C a apresentar níveis superiores de ácidos clorogénicos, compostos reconhecidos pelas suas propriedades antioxidantes.
- Extratos obtidos: MW1Sn (150°C) e MW2Sn (180°C).
- Composição: polissacarídeos (galactomananos, arabinogalactanos) e fenóis como ácidos clorogénicos.
- Aplicação prática: emulsões do tipo água-em-óleo-em-água para encapsular e proteger compostos suscetíveis à oxidação.
As emulsões produzidas mostraram boa estabilidade estrutural e capacidade de limitar a formação de marcadores de oxidação lipídica, como os aldeídos, que podem provocar odores e sabores indesejáveis. Paralelamente, ajudaram a preservar compostos voláteis responsáveis pelo aroma do café, nomeadamente furanos.
"pode ser reutilizada para criar emulsões alimentares sustentáveis capazes de proteger o óleo de café da oxidação e preservar seu aroma"
Os resultados apontam para a viabilidade técnica de transformar um resíduo largamente disponível em matéria-prima funcional, com potencial de aplicação na indústria alimentar e cosmética, onde a proteção de ingredientes susceptíveis à oxidação é um desafio recorrente.
Implicações locais e próximas etapas
Para o distrito de Aveiro, onde a Universidade desempenha um papel central na ligação entre investigação e tecido empresarial, a descoberta abre caminhos para iniciativas de economia circular. Empresas transformadoras de alimentos, produtoras de óleos e pequenos empresários locais podem beneficiar da conversão da borra de café em aditivo estabilizante ou em novos produtos com valor acrescentado.
Do lado da investigação, os próximos passos incluem a escalabilidade do processo, testes de segurança alimentar e avaliação económica para determinar se a extração e processamento da borra compensam face a alternativas comerciais. A participação de parceiros industriais e a procura de financiamento para demonstradores em escala piloto serão determinantes para transpor o resultado do laboratório para o mercado.
Em termos práticos para os cidadãos, o estudo sublinha o valor potencial de separar e recolher borra de café em grande quantidade — por exemplo em cafés, restaurantes e empresas — como matéria-prima que merece ser valorizada em vez de simplesmente descartada.