Parceria pretende condicionar decisivamente desenho e qualidade do novo aeroporto
Na semana passada foi assinado um acordo entre a Ordem dos Arquitectos e a ANA — Aeroportos de Portugal que prevê a colaboração da Ordem no processo de seleção das equipas de arquitectura responsáveis pelo novo aeroporto de Lisboa. O entendimento surge num momento em que o debate público sobre a localização e o desenho do equipamento tem vindo a ser retoma‑do, e propõe colocar a qualidade projectual no centro da decisão.
O acordo, discreto na cobertura mediática até ao início de agosto, assume uma importância que vai além da estética: trata‑se de condicionar a forma como aquele que será um dos principais pontos de entrada no país funcionará, se integrará em redes de transporte e se adaptará às exigências futuras.
Comparando com outros aeroportos ibéricos, o texto de referência recorda que Madrid Barajas e Barcelona El Prat beneficiaram de intervenções arquitectónicas reconhecidas, que não só lhes granjearam prémios como também reflectiram-se em indicadores de satisfação dos passageiros. Essa experiência é invocada como exemplo do valor estratégico de uma aposta que combine qualidade técnica, sustentabilidade e experiência do utilizador.
Os promotores do acordo alertam para os riscos de priorizar apenas o custo de construção. Espaços rígidos, concebidos sem margem para evolução face às mudanças de procura, aos efeitos das alterações climáticas ou a novos padrões de mobilidade, podem tornar‑se onerosos a médio e longo prazo. A resiliência — quer das infra‑estruturas aeronáuticas, quer dos sistemas de suporte, como bagagem e controlo aduaneiro — é destacada como um factor determinante.
Do ponto de vista do utilizador, a integração entre a estação intermodal de transporte e as portas de embarque é apontada como um aspecto crítico: transições suaves, fiáveis e previsíveis contribuem para uma experiência de viagem positiva e para a criação de uma memória urbana que valorize Lisboa. A luz natural, a sinalética clara e materiais adequados são exemplos de elementos capazes de construir essa memória.
- Seleção de equipas: a Ordem dos Arquitectos participa no processo com o objectivo de elevar a qualidade do desenho.
- Foco na resiliência: capacidade de adaptação a alterações climáticas e a novas dinâmicas de mobilidade.
- Integração multimodal: transições entre transporte terrestre e aéreo consideradas essenciais para a experiência do passageiro.
A iniciativa abre perguntas práticas para os residentes e utilizadores: como será garantida a coordenação entre planeamento urbano e infra‑estruturas, que critérios de sustentabilidade e acessibilidade serão exigidos e de que modo os processos de concurso irão reflectir essas prioridades. O acordo coloca a arquitectura como um elemento de política pública, não apenas como um capítulo de projecto.
| Aspecto | Enfoque apontado |
|---|---|
| Qualidade arquitectónica | Elevada — para criar memória e satisfação dos passageiros |
| Resiliência | Adaptabilidade a alterações climáticas e operacionais |
| Integração | Conexão entre estações intermodais e portas de embarque |
Para os habitantes da região de Lisboa, a decisão sobre as equipas de arquitectura não é um pormenor técnico: condiciona o impacto do aeroporto sobre a cidade, a ligação aos corredores de transporte existentes e futuros, e a forma como o território vai suportar o aumento de tráfego aéreo e de passageiros. A colaboração formalizada esta semana é um passo com potencial para influenciar esses desdobramentos — desde que se mantenha a transparência dos critérios de selecção e a participação pública nos momentos relevantes do processo.