Saúde

Ordem dos Médicos denuncia «desinformação gravíssima» e propõe nova regulação do espaço digital

O Observatório do Ato Médico recebeu 230 queixas desde abril de 2025. A Ordem pede reforço da fiscalização sobre redes, plataformas e inteligência artificial e entregou uma proposta legislativa com 12 pontos às autoridades nacionais.

Ordem dos Médicos denuncia «desinformação gravíssima» e propõe nova regulação do espaço digital
©Ilustração IA Carla Nunes / propagandistasocial.com

A Ordem dos Médicos alerta para a crescente circulação de mensagens de saúde nas plataformas digitais que são, na sua maioria, incorretas, alarmistas e potencialmente prejudiciais para o cidadão. Dados do Observatório do Ato Médico, criado em abril de 2025, registam 230 queixas sobre conteúdos que usurpam funções médicas, desincentivam tratamentos convencionais ou exploram o medo e a ansiedade das pessoas mais vulneráveis.

Gravidade identificada pelos profissionais

Na leitura do bastonário Carlos Cortes, há situações que configuram risco directo para a saúde pública: mensagens que aconselham doentes com cancro a interromper terapêuticas hospitalares e a aderir a soluções alternativas são citadas como exemplos de consequências concretas e «gravíssimas». A Ordem sustenta que muitos autores desse tipo de conteúdo agem com intenção de obter elevada visibilidade e benefícios económicos, superando frequentemente a divulgação científica rigorosa.

Proposta legislativa e pedido de fiscalização

Face a este quadro, a Ordem entregou no dia 1 de outubro uma proposta legislativa com 12 pontos ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Ministério da Saúde, na qual se disponibiliza também para colaborar a nível europeu na sinalização destas situações. O objectivo formal não é cercear a liberdade de expressão, refere a organização, mas assegurar que «quem o faz tem de ser responsabilizado» quando as mensagens incorrem em violação do acto médico ou em indução de comportamentos lesivos.

“Temos conhecimento de situações gravíssimas, como incentivar doentes com cancro a deixarem de fazer os seus tratamentos nos hospitais para tentarem outras soluções. Do nosso ponto de vista, isto é algo que tem de ter regulado e fiscalizado porque quem o faz tem de ser responsabilizado.” — Carlos Cortes

Áreas de intervenção sugeridas

  • Reforço da regulação e fiscalização de redes sociais, plataformas de partilha, motores de pesquisa e sistemas de inteligência artificial usados na comunicação em saúde;
  • Articulação europeia para sinalização e combate a conteúdos perigosos;
  • Clarificação do enquadramento legal onde já existem instrumentos, com propostas para colmatar lacunas identificadas.

Impactos e próximos passos

A iniciativa da Ordem coloca na agenda política a necessidade de um enquadramento específico para conteúdos de saúde no ambiente digital. A proposta será agora analisada pelas entidades competentes, que terão de ponderar medidas que conciliem a liberdade de expressão com a protecção dos utentes e a responsabilização de quem divulga informação profissional sem qualificações ou com intenção fraudulenta.

Parâmetro Valor
Queixas recebidas pelo Observatório do Ato Médico 230
Data de criação do Observatório Abril de 2025
Data de entrega da proposta legislativa 1 de outubro

Para além da eventual revisão legal, a discussão pública deverá envolver plataformas tecnológicas, reguladores, profissionais de saúde e representantes dos utentes, com o desafio de definir mecanismos de detecção, alerta e remoção de conteúdos perigosos sem prejudicar o legítimo espaço de debate público. A Ordem coloca-se como parceira nessa resposta, sublinhando a necessidade de proteger cidadãos, em especial os mais vulneráveis, da exploração comercial e emotiva que alimenta a desinformação em saúde.

Carla Nunes
Carla IA Jornalista de Saúde online

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