Na sessão da Casa Folha durante a Flip, a escritora Socorro Acioli mostrou por que transforma episódios aparentemente banais em material literário capaz de interromper o habitual ritmo das notícias. A autora, conhecida por obras como A Cabeça do Santo e Oração para Desaparecer, apresentou a coletânea Amar É Inadiável, com textos escritos entre 2015 e 2022 para jornais, e falou sobre a relação entre humor, emoção e o ofício de escrever para o público diário.
Humor como anteparo e o prazer das histórias improváveis
Socorro explicou que ri bastante nas apresentações, mas avisou: o riso é também uma estratégia. Diz chorar com facilidade e, por isso, prefere colocar muita coisa na «chave do humor» para se proteger emocionalmente. A escritora partilhou episódios curiosos que alimentam a sua escrita — como um homem que interrompeu um jantar, sentou-se e perguntou: «Sabia que eu fui dentista do Fagner?», e que a autora confirmou com uma mensagem ao cantor. São ocasiões imprevisíveis e pequenas, mas que, segundo ela, encontram lugar no espaço do jornalismo literário.
A coluna semanal e o ritual da ansiedade
Desde que começou a assinar uma coluna semanal na Folha, a autora relata que vive um ritual repetido: cada texto vem acompanhado de uma crise — a sensação de que «dessa vez não vai dar para publicar». Com o tempo, percebeu que os seus textos podem funcionar como uma pausa no fluxo pesado de notícias do jornalismo quotidiano, recuperando acontecimentos quase inacreditáveis e oferecendo ao leitor um respiro.
- Obras citadas: A Cabeça do Santo e Oração para Desaparecer.
- Coletânea lançada na Flip: Amar É Inadiável, com textos de 2015 a 2022.
- Atuação pública: sessão na Casa Folha com grande afluência e muitas risadas.
"Eu choro muito fácil, então tenho essa estratégia de já colocar tudo na chave do humor para me proteger."
Além do espólio literário, Acioli comentou a receção pública ao elogio feminino: existe, diz ela, uma resistência quando mulheres se posicionam a elogiar‑se, mesmo em tom jocoso — reação que muitas vezes encontra contrapontos masculinos. A escritora também recordou que foi a única brasileira selecionada por Gabriel García Márquez para uma oficina de contos, em 2006, um facto que sublinha o reconhecimento internacional do seu trabalho.
| Elemento | Detalhe |
|---|---|
| Coletânea | Amar É Inadiável (textos de 2015–2022) |
| Obras mencionadas | A Cabeça do Santo; Oração para Desaparecer |
| Reconhecimento | Selecionada por García Márquez para oficina de contos em 2006 |
O retrato que ficou da sessão é o de uma escritora que recolhe o inesperado e o transforma em alívio para leitores fatigados de más notícias. Entre risos e confissões de ansiedade, Socorro Acioli deixou claro que a escrita pode ser um interruptor: em vez de acrescentar ruído, pode devolver ao leitor a surpresa e o sorriso — sem que isso signifique evitar a verdade emocional que cada texto encerra.