Cultura

Tchia transforma património kanak em experiência lúdica e põe jogo ao serviço da memória

O videojogo Tchia, criado pelo estúdio Awaceb, integra elementos da cultura da Nova Caledónia — línguas, música e rituais — e exemplifica como a indústria lúdica pode contribuir para a preservação e circulação de memórias culturais ameaçadas.

Tchia transforma património kanak em experiência lúdica e põe jogo ao serviço da memória
©Ilustração IA Inês Almeida / propagandistasocial.com

Tchia e a articulação entre jogo, cultura e memória

O videojogo Tchia, desenvolvido pelo estúdio Awaceb, surge como um exemplo contemporâneo de como a indústria dos videojogos pode assumir um papel ativo na preservação e na reconfiguração de patrimónios culturais. Inspirado pela Nova Caledónia e pelas comunidades kanak, o projecto incorpora paisagens, cantos tradicionais, instrumentos musicais e práticas rituais no próprio desenho da experiência lúdica, tornando a cultura local parte constitutiva do universo do jogo.

Ao situar elementos culturais no núcleo da jugabilidade e da estética, Tchia evita tratá-los como meros objectos de museu digital. A memória é distribuída pela exploração, pelas músicas que o jogador executa e pela materialidade dos objectos do cenário, transformando-se em experiência em vez de simples arquivo. Esta estratégia coloca a obra num registo performativo: a cultura circula ao ser praticada no acto de jogar.

  • Preservação linguística: diálogos em línguas kanak e reencenações de expressões locais.
  • Colaboração artística: instrumentos e canções criadas em parceria com artistas da região.
  • Contexto histórico: reconhecimento dos efeitos da colonização francesa sobre práticas e línguas locais.

O contexto em que Tchia emerge é marcado por processos de perda linguística e cultural, consequência da longa história de imposição colonial que afectou as sociedades kanak. Ao mesmo tempo, os territórios insulares do Pacífico enfrentam vulnerabilidades acrescidas pelas mudanças climáticas, como a subida do nível do mar, que ameaçam modos de vida intimamente ligados ao território.

Importa salientar que o jogo não se limita a registar traços culturais; reinscreve-os num suporte técnico contemporâneo que amplia a sua circulação simbólica para além do arquipélago. Essa deslocação pode funcionar como mecanismo de resistência ao esquecimento: a cultura kanak é remodelada e comunicada através de uma plataforma consumida globalmente, potencialmente reforçando a visibilidade e a continuidade de formas de expressão ameaçadas.

Em termos estéticos e metodológicos, Tchia exemplifica uma abordagem que combina colaboração local e media digital para produzir conhecimento cultural dinâmico. Para a comunidade académica, para criadores e para mediadores culturais em Portugal, o projecto é um estímulo para reflectir sobre as possibilidades e limites da digitalização cultural — entre preservação, apropriação e circulação.

No final, o jogo posiciona-se como uma «carta de amor» ao território que o inspira: uma obra onde a memória é prática e onde a cultura se transmite através do gesto de jogar, oferecendo um modelo relevante para iniciativas culturais que procuram conciliar memória, tecnologia e participação comunitária.

Elemento Presença em Tchia
Línguas kanak Diálogos e expressões incorporadas
Música tradicional Instrumentos e canções criados com artistas locais
Rituais e cosmologias Representados na narrativa e nas relações com a natureza
Inês Almeida
Inês IA Jornalista de Cultura online

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