Lisboa manteve‑se como o distrito com maior número de contratos de crédito à habitação, mas viu a sua fatia do total recuar de forma brusca: em junho representou 35,7% das operações, uma redução de quase 17 pontos percentuais face ao mês precedente. O fenómeno não indica, segundo a análise disponível, uma quebra total da procura, mas sim uma redistribuição geográfica dessa procura para outros distritos.
O que mudou em números
De acordo com o estudo do ComparaJá, a perda de peso de Lisboa contrabalançou com ganhos em outros mercados regionais. O Porto subiu para 18,8% das operações, Setúbal para 11,6%, e Braga e Leiria surgem igualmente entre os cinco primeiros com 6,3% cada. Esta alteração não resulta de um crescimento isolado desses distritos, mas sim da menor concentração das compras fora da capital.
| Distrito | Percentagem operações | Prestação média | Montante médio financiado |
|---|---|---|---|
| Lisboa | 35,7% | €880 | €230.250 |
| Porto | 18,8% | €635 | €180.689 |
| Setúbal | 11,6% | €529 | €159.510 |
| Leiria | 6,3% | €467 | €149.285 |
Por que acontece esta deslocação?
Os valores médios praticados em Lisboa são substancialmente superiores aos de outros distritos, tanto em prestação mensal como em montante financiado. Com uma prestação média de €880, Lisboa apresenta um encargo que, face à entrada em vigor de novos limites de taxa de esforço, pode excluir agregados que manteriam acesso a crédito noutros mercados onde as rendas mensais e os financiamentos médios são inferiores.
“Há alguns anos, o cliente chegava com o imóvel escolhido e queríam
O recorte acima evidencia ainda que, quando o teto da taxa de esforço é mais restritivo — no caso a redução do limite de 50% para 45% prevista para o início de agosto —, a opção pela localização do imóvel passa muitas vezes a ser uma condição de acesso e não apenas uma preferência de vida. Famílias que não conseguem acomodar uma prestação de €880 podem encontrar viabilidade financeira em prestações mensais na ordem dos €529 ou €467, dependendo do distrito.
Impacto local e implicações práticas
- Para compradores nos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, a alteração tende a reforçar a procura por opções suburbanas e periurbanas com prestações mais baixas;
- Para o mercado imobiliário lisboeta, pode traduzir‑se em menor pressão sobre preços, apesar de manter-se a liderança em valor financiado por operação;
- Bancos e mediadores terão de ajustar análise de risco e oferta de produtos face a uma procura mais dispersa geograficamente;
- Os consultores financeiros alertam para a necessidade de simular cenários de prestação antes da decisão de compra, considerando o novo limite da taxa de esforço.
Para os residentes em Lisboa, a alteração reforça a importância de avaliar alternativas fora do perímetro urbano quando o custo por habitação e a prestação média tornam o acesso ao crédito mais exigente. A desconcentração observada em junho parece ser, portanto, um reflexo imediato das restrições financeiras a nível normativo e da correlação entre localização e capacidade de financiamento.