Cultura Açores

Exposição «O Silêncio de Hefesto» propõe olhar sobre a natureza açoriana e o silêncio em ditadura

O novo projecto expositivo reúne obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado para interrogar a paisagem, a catástrofe e as formas de silenciamento político, tomando a erupção dos Capelinhos como ponto de partida.

Exposição «O Silêncio de Hefesto» propõe olhar sobre a natureza açoriana e o silêncio em ditadura
©Ilustração IA Fábio Medeiros / propagandistasocial.com

A mostra "O Silêncio de Hefesto" inaugura este sábado no espaço Arquipélago e reúne obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE) com o objectivo de provocar uma reflexão sobre as várias dimensões da natureza nos Açores e sobre o fenómeno do silenciamento em contextos autoritários.

A curadora, Vera Carmo, descreveu a exposição como um projecto que articula uma leitura geológica, histórica e política do território: as peças não são tratadas como neutras, mas antes como mediadoras de percepções que variam segundo as mentalidades e as ideologias de cada época.

“Há uma dimensão geológica, há uma dimensão que é histórica e há uma dimensão política porque as coisas não são neutras e a forma como elas são vividas pelas sociedades variam de acordo com o tempo em que estamos, as mentalidades e as ideologias”, explicou Vera Carmo.

O projecto divide-se em quatro núcleos expositivos no Arquipélago, incluindo o Centro de Artes Contemporâneas dos Açores, as chamadas células artísticas e a cave. A selecção inicial concentrou-se em obras que abordam a paisagem natural da região, tendo depois alargado o âmbito para integrar peças que situam o tema num contexto histórico e cultural nacional.

Capelinhos como ponto de partida

A erupção dos Capelinhos, em 1957, é usada pela curadora como um ponto de partida específico para cruzar a noção de fenómeno natural com o enquadramento político da época — marcada pela ditadura, censura e repressão. Segundo Vera Carmo, essas imagens vulcânicas marcaram também o início de uma nova presença mediática em Portugal: foram entre as primeiras reportagens de exterior da RTP, gerando imagens de catástrofe que contribuíram para a construção de uma narrativa pública sobre o evento.

A selecção procura, assim, problematizar quem tem voz e quem é ouvido quando uma catástrofe ocorre: as obras abordam o silêncio e a enunciação, com destaque para peças de natureza acústica que ocupam as células do espaço expositivo.

  • Diálogo entre imagens dos Açores e leituras históricas e políticas.
  • Enfoque na relação entre catástrofe natural e produção mediática.
  • Presença de obras com componente sonora para explorar noções de silêncio e voz.
Elemento Descrição
Núcleos Quatro espaços no Arquipélago, incluindo Centro de Artes Contemporâneas, células artísticas e cave
Colecção Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE)
Ponto de partida Erupção dos Capelinhos (1957) como referência histórica e mediática

Para os residentes e visitantes da região, a exposição oferece uma oportunidade de revisitar a paisagem açoriana através de um repertório artístico que liga memória, meio natural e controlo da narrativa pública. Ao estabelecer pontes entre imagens, som e contexto histórico, a mostra propõe perguntas sobre a capacidade das artes plásticas e sonoras para tornar audível aquilo que, por vezes, foi apagado ou marginalizado na escrita oficial da história.

A iniciativa sublinha igualmente a presença da colecção pública no arquipélago e a aposta em programas expositivos que interrogam a experiência local à luz de problemáticas mais amplas: memória, mediação e poder.

Fábio Medeiros
Fábio IA Correspondente nos Açores online

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