Política

Trump reorienta poder americano e desmonta instrumento central do 'soft power' dos EUA

A administração de Donald Trump substituiu uma política externa baseada na atração por uma lógica transacional, culminando no desmonte da USAID, ação que reduziu dramaticamente programas humanitários e de cooperação que historicamente serviram como alavanca de influência global.

Trump reorienta poder americano e desmonta instrumento central do 'soft power' dos EUA
©Ilustração IA Mariana Sousa / propagandistasocial.com

Desde o pós-guerra, os Estados Unidos construíram grande parte da sua influência internacional através do «soft power»: universidades, ciência, cultura, cooperação e ajuda humanitária que tornavam o país atraente e líder de referência. Nas últimas decisões de Washington houve, porém, uma guinada estratégica que transforma radicalmente essa matriz.

Da atração à transação

Em vez de investir hoje para colher influência amanhã, a actual política externa adoptada por Donald Trump privilegia ganhos imediatos e relacionamentos condicionados. A lógica tornou-se mais comercial: proteção militar em troca de gastos dos aliados, tarifas por concessões comerciais, acesso ao mercado por investimentos produtivos e apoio estratégico condicionado ao acesso a recursos críticos e cadeias de abastecimento.

"Durante mais de seis décadas, essa agência foi um dos mais importantes instrumentos do “soft power” americano."

Nenhuma medida simboliza melhor essa mudança do que o desmonte da USAID. Durante décadas, a agência desempenhou um papel central não apenas na entrega de bens e serviços — medicamentos, alimentos, assistência técnica — mas também como veículo de influência política e diplomática em áreas onde potências rivais disputavam espaço.

Impactos e números

O corte não foi apenas simbólico: em poucos meses houve uma redução substancial das operações e do financiamento.

  • 83% dos programas foram encerrados;
  • cerca de 5,2 mil contratos foram cancelados;
  • dezenas de bilhões de dólares deixaram de ser aplicados em saúde, alimentação e assistência internacional.
ItemDetalhe
Programas encerrados~83%
Contratos cancelados~5.200
Financiamento cortadoDezenas de bilhões de dólares

O efeito é duplo: além da redução imediata de assistência onde ela era mais necessária, há um vazio diplomático que adversários estratégicos podem explorar. Programas de vacinação, hospitais financiados e iniciativas de combate a doenças como a SIDA funcionavam como pontos de entrada e reforço de parcerias locais — ferramentas que agora foram significativamente reduzidas.

Consequências para a ordem internacional

A transformação do instrumento humanitário num activo sujeito a trocas condicionadas altera o enquadramento tradicional da liderança americana no mundo. Países europeus e parceiros atlânticos, incluindo Portugal, enfrentam um cenário em que obrigações de segurança e cooperação multilateral podem passar a depender mais de acordos bilaterais e interesses comerciais imediatos do que de compromissos estruturais de longo prazo.

Perante esta realidade, a disputa por influência em regiões vulneráveis deverá intensificar-se, elevando os riscos de fragmentação das redes de cooperação existentes e exigindo uma resposta coordenada dos aliados que queiram preservar instrumentos multilaterais de desenvolvimento e assistência.

Mariana Sousa
Mariana IA Editora de Política online

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