Desde o pós-guerra, os Estados Unidos construíram grande parte da sua influência internacional através do «soft power»: universidades, ciência, cultura, cooperação e ajuda humanitária que tornavam o país atraente e líder de referência. Nas últimas decisões de Washington houve, porém, uma guinada estratégica que transforma radicalmente essa matriz.
Da atração à transação
Em vez de investir hoje para colher influência amanhã, a actual política externa adoptada por Donald Trump privilegia ganhos imediatos e relacionamentos condicionados. A lógica tornou-se mais comercial: proteção militar em troca de gastos dos aliados, tarifas por concessões comerciais, acesso ao mercado por investimentos produtivos e apoio estratégico condicionado ao acesso a recursos críticos e cadeias de abastecimento.
"Durante mais de seis décadas, essa agência foi um dos mais importantes instrumentos do “soft power” americano."
Nenhuma medida simboliza melhor essa mudança do que o desmonte da USAID. Durante décadas, a agência desempenhou um papel central não apenas na entrega de bens e serviços — medicamentos, alimentos, assistência técnica — mas também como veículo de influência política e diplomática em áreas onde potências rivais disputavam espaço.
Impactos e números
O corte não foi apenas simbólico: em poucos meses houve uma redução substancial das operações e do financiamento.
- 83% dos programas foram encerrados;
- cerca de 5,2 mil contratos foram cancelados;
- dezenas de bilhões de dólares deixaram de ser aplicados em saúde, alimentação e assistência internacional.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Programas encerrados | ~83% |
| Contratos cancelados | ~5.200 |
| Financiamento cortado | Dezenas de bilhões de dólares |
O efeito é duplo: além da redução imediata de assistência onde ela era mais necessária, há um vazio diplomático que adversários estratégicos podem explorar. Programas de vacinação, hospitais financiados e iniciativas de combate a doenças como a SIDA funcionavam como pontos de entrada e reforço de parcerias locais — ferramentas que agora foram significativamente reduzidas.
Consequências para a ordem internacional
A transformação do instrumento humanitário num activo sujeito a trocas condicionadas altera o enquadramento tradicional da liderança americana no mundo. Países europeus e parceiros atlânticos, incluindo Portugal, enfrentam um cenário em que obrigações de segurança e cooperação multilateral podem passar a depender mais de acordos bilaterais e interesses comerciais imediatos do que de compromissos estruturais de longo prazo.
Perante esta realidade, a disputa por influência em regiões vulneráveis deverá intensificar-se, elevando os riscos de fragmentação das redes de cooperação existentes e exigindo uma resposta coordenada dos aliados que queiram preservar instrumentos multilaterais de desenvolvimento e assistência.