Adesão massiva ao sistema de depósito eleva retorno financeiro e cria rendimento para alguns
O sistema nacional de depósito e reembolso de embalagens de bebidas, conhecido por Volta e operado pela SDR Portugal, registou desde abril mais de 150 milhões de garrafas e latas entregues nas máquinas automáticas. A iniciativa já traduziu-se na emissão de vouchers que totalizam mais de 15 milhões de euros.
Os vouchers têm validade de um ano e podem ser utilizados nos supermercados, onde também podem ser convertidos em dinheiro físico. Nem sempre são todos utilizados imediatamente, o que introduz um fluxo de fundos não reclamados com aplicações previstas conforme metas do sistema.
Impactos sociais: rendimentos imediatos e novos comportamentos
O impacto do Volta não se limita à redução de resíduos. Em entrevistas recolhidas pela Lusa, há relatos de pessoas que transformaram a recolha de embalagens num meio de subsistência. Um dos exemplos mais citados é o de Ricardo Silva, sem-abrigo em Lisboa, que chegou a obter 50 euros por dia ao entregar 500 embalagens; atualmente disse que consegue cerca de 20 euros diários.
“Antes andava aqui, a pedir comida... Desde que veio isto, comecei a ir cedo para os caixotes do lixo. Às vezes passo noites inteiras a apanhar”,
A prática mudou rotinas: locais como paragens de autocarro, hotéis e prédios de maior rendimento tornaram-se pontos procurados. Para outras famílias, como a de Joaquim Santos — que vive numa pensão apoiada pela assistência social e acompanha uma esposa com doença oncológica — o sistema representa um suplemento ao rendimento familiar.
Gestão dos valores não reclamados e rede de recolha
Segundo a gestão do sistema, os montantes de vouchers não utilizados podem ser reinvestidos na melhoria do próprio programa, caso se cumpram as metas estabelecidas. Em alternativa, esses fundos revertem para o Fundo Ambiental e para iniciativas de promoção dos direitos dos consumidores.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Embalagens depositadas | +150 milhões |
| Vouchers emitidos (valor total) | +15 milhões de euros |
| Início da operação | Abril |
| Pontos de recolha automática | 3 000 |
Consequências para política pública e economia local
O sucesso inicial do Volta apresenta várias questões para políticas públicas e para o tecido económico local. A utilização de vouchers como rendimento suplementar por populações vulneráveis sublinha a necessidade de coordenação entre políticas sociais e de resíduos. Por outro lado, o aumento da recolha seletiva pode reduzir custos de gestão de resíduos e elevar taxas de reciclagem, com efeitos ambientais e orçamentais a médio prazo.
- O sistema já atingiu uma escala nacional significativa em poucos meses.
- Os vouchers oferecem liquidez a alguns cidadãos, mas geram fundos não reclamados que têm destino condicionado.
- O Volta cria interações entre políticas ambientais, protecção social e dinâmica urbana.
O desenvolvimento futuro dependerá da capacidade da SDR Portugal e das autoridades de monitorizar não só a eficiência ambiental do sistema, mas também os impactos socioeconómicos que emergem da sua operação quotidiana.